Capítulo 1 – The Hunger

     Fugia intencionalmente da minha realidade para os filmes, me transportava para eles quando o que estava vivendo era tedioso. Funcionava para mim como uma casa abandonada, uma espécie de refúgio, normalmente pensava neles como imagens oníricas e distorcidas. Como nos antigos filmes, de Luis Buñuel a Nouvelle Vague passando pelo Noir, minha vida era uma espécie de sonho, é até hoje difícil de explicar a razão de estar aqui. Além disso, cometo muitas digressões, mas ninguém é perfeito. Quanto a ser uma dádiva ou uma maldição, tal como o resto, é subjetivo.

Era Agosto, precisamente dia 8. Estava muita ansiosa pelo primeiro dia de aula no terceiro ano do ensino médio, havia muito tempo que não estudava. Por muitos anos pensei que me esconder do mundo, deixar de viver seria uma boa forma de acabar com qualquer tipo de perigo que poderia representar para qualquer um. Mas estava cansada disso, de não ter problemas, pois problemas era tudo que não tinha, já que não os procurava há décadas. Vivi mais de um século sem me importar com qualquer pessoa, de certo modo gostaria que eu voltasse a ser assim. Decidi que era hora de parar de me preocupar com os outros, ou com o perigo que representava a eles para começar a viver, havia conseguido isso no passado, por que não agora? Queria viver como as pessoas de minha idade viviam, ou melhor, viver como a maioria das pessoas da idade que aparentava ter vivia.

Era necessário esquecer o que havia acontecido com minha família, como Tom sempre me encorajou a fazer. Havia mais de dois séculos, deveria esquecer. Entendi que não era minha culpa, nada podia fazer. Quem eu era de verdade não existia mais por causa das limitações humanas, era só uma lembrança que pedia para ser esquecida. Não sabia por que, apenas me veio à cabeça uma música dos Beatles, Yesterday (Ontem). Era assim que me sentia? Hoje estava mais nervosa que o usual. O tempo podia diminuir a dor, aconteceu comigo, afinal ela é causada por lembranças que as pessoas possuem a tendência de superestimar. Quando o dia acabasse, iria juntá-lo a lista dos meus dias sem sentido. Ir para escola não iria mudar nada, na realidade, iria piorar. Meus amigos tinham certeza que seria uma distração, mas essa não se enquadrava na minha definição de distrações. Para mim, distração seria aumentar o número de livros e obras de arte de minha coleção fazendo compras em Paris, Berna, Salzburgo, Viena, ou mesmo em Estocolmo, mas se isso não fosse possível matar alguém sempre ajudava a acalmar, sentia uma paz interior depois de matar alguém, era como se o mundo espontaneamente fosse melhor, mas isso foi há muito tempo. Que pena que meus amigos eram contra essa última opção. De certo modo, não queria desapontá-los, não sei o porquê disso, é um tipo de emoção, e há muito deixei de entendê-las.

A escola era coeducacional, começava às 5h 00m da tarde, e terminava ás nove e quarenta, então coloquei o despertador com o desenho de uma pin up dos anos quarenta para ás três e quarenta, até que meus amigos chegassem deveria estar entardecendo, de um modo ou de outro só havia uma pequena janela, e ela ficava do outro lado do quarto. Comprei o despertador há menos de um mês, e já estava arranhado graças ao meu modo descuidado de ser. Se o sol ainda não estivesse se pondo no horizonte até o horário que tivesse que sair, teria uma desculpa para faltar o primeiro tempo.

Morava um pouco longe da escola, preferia manter segredo sobre meu passado. Para todos os efeitos tinha dezessete anos, me transferi de uma escola em Liverpool, e vivia sozinha porque meus pais tinham morrido num acidente de carro, não tinha nenhum outro parente, tinha condições financeiras de me sustentar por causa da herança de meus pais. Parecia convincente essa desculpa, pelo menos funcionava na maioria dos filmes.

A escola era em Londres, precisamente, em Westminster. Gostava de lá, ao ser descrito em algumas estórias, o lugar parecia mágico como as de J.M Barrie. Para quem não é familiarizado com o nome ele foi o escritor de “Peter Pan or The Boy Who Wouldn’t Grow” (Peter Pan, ou O garoto que não queria crescer), que foi o título dado para adaptação nos teatros no início do século XX. Mesmo assim, prefiro Neverland (Terra do Nunca) é mágica, fantasiosa, e lá poderia sempre achar Peter Pan. Mas Peter não existe, nem nunca irá, é infelizmente um faz de conta, eu gostaria de ser uma criança para que pudesse acreditar neles, talvez seja em alguns aspectos. Não é tão difícil acreditar em fadas, do mesmo modo que os sonhos não podem de modo algum acabar. A Terra do Nunca, talvez fosse minha ideia de mundo ideal, mas sei que não existe esse tipo de coisa.

Voltei para Londres há dois anos, e nas palavras de Tom por eu não ser socializável, não conhecia ninguém, com exceção dos meus seletos e diferentes amigos. Ninguém humano que havia me conhecido há quatro ou mais décadas morava lá, esse era o ponto principal. Uma das coisas mais difíceis para indivíduos como eu são as mudanças, não é possível se fixar a um lugar ou a pessoas, pois tudo é passageiro quando sou obrigada a desempenhar um papel. A maioria dos personagens não mudam a aparência tal como vampiros.

Algumas vezes meus amigos iam me visitar, não eram raras. Tentavam me distrair, fazer esquecer o que aconteceu no passado. Concordava que fazia muito tempo, que devia esquecer, mas falar em esquecer e realmente esquecer é completamente diferente. Como gostaria de apagar da memória minha própria condição, contudo esquecer aquela noite não era possível, poderia dizer que ela era uma parte de mim.
Como deve ter percebido possuo um certo talento para a dramatização, qualquer história seja verdadeira ou imaginada necessita de um pouco dela.

A mansão em que morava era isolada do resto, poderia dizer que era escondida. Havia uma rodovia em frente, e uma entrada do lado direito a ela, como um desvio, por isso que a comprei. A arquitetura era em estilo Vitoriana, a construção datava da primeira metade do século XIX. Atrás da casa havia um lago, mesmo não sendo muito grande, um adulto de porte médio poderia facilmente se afogar, devido a profundidade. Tinha um prado imenso atrás da casa, como o que havia na mansão de conto de fadas do filme “Rebecca” (Rebecca, a mulher inesquecível) de 1940, com Joan Fontaine e Laurence Olivier, dirigido por Alfred Hitchcock, foi aliás, o primeiro filme que dirigiu nos Estados Unidos. Ele filmaria uma versão de Titanic, no entanto, o produtor David O. Selznick havia comprado os direitos de Rebecca, escrita por Daphne Du Maurier. O final é surpreendente. Ambos os atores conseguiram interpretar majestosamente os papéis de segunda Sra. De Winter e Maximiliam de Winter, respectivamente. Não só eles como Judith Anderson, que fez o papel da governanta. Não sou uma crítica de cinema nem desejo ser. Essa é só minha respeitável opinião.

O lugar em que morava lembrava muito da época em que vivia com Tom, trazia recordações de anos em que eu realmente era feliz, e não precisava me importar com nada por que ele estava perto para me apoiar, Tom era só um antigo amigo. Realmente não preciso me importar com o dia seguinte, mas apreciava a companhia dele. O que realmente determinou a compra da casa foram as lembranças dos bons tempos. Morei numa casa que possuía a mesma arquitetura, a diferença era que antes era uma casa com sete cômodos.

Esperava o despertador tocar, hoje estava impaciente, impaciente para ir para a escola. Ninguém deve compartilhar da minha opinião, de qualquer modo, não sou igual a ninguém. Assim que me levantei fui ao banheiro que ficava no quarto. A iluminação era escura, havia uma banheira de cor preta, um chuveiro com porta de vidro fosco, a bancada da pia era quadrada, da mesma cor da banheira. E uma privada, que era mais decorativa. Se vampiros precisam dela? Bem, se eu responder estragaria… Francamente, por que pergunta, se sabe a resposta? Está bem, está bem, direi. Sim, digamos que me alimente de algo que não deveria, como uma pizza, passaria muito mal, teria que expelir o alimento. Essa é uma situação em que a privada torna-se útil, não acredito que haja outras, se houver, não consigo pensar nelas no momento. Sei que sabia disso. Enfim, tomei banho e escovei os dentes, sujos ou não, nunca teria uma cárie, eles sempre ficariam perfeitos.

O veneno proporcionava essas facilidades, mas de um jeito ou de outro se ia conviver com humanos precisava me acostumar a agir igual a eles. Ser vampiro! Até hoje penso no estranho nome dado a minha espécie, Vlad Tepes era só um homem ruim como qualquer outro, mas não bebia sangue pelo menos não para continuar vivo. Quanto ao ato de beber sangue, não era só ele. No século XV, o Papa Inocêncio VIII perto da morte foi aconselhado pelo médico a fazer uma transfusão. Assim sendo, bebeu o sangue
de três crianças, pois acreditava-se na época que um sangue novo daria uma nova vida. No fim, as crianças morreram, tal como ele.

O quarto em que ficava não era o único, era o maior, mas por só haver uma pequena abertura do outro lado, ele adquirira um ar lúgubre. Aprecio o quanto as casas podem parecer imponentes. Havia ao todo trinta e seis cômodos. Assim que a porta da mansão era aberta, visualizava-se um grande hall em estilo Tudor de pé-direito alto apainelado de carvalho negro, a direita haveria uma grande porta que levaria ao salão. Ao seguir em frente, depois virasse a esquerda no fim do corredor, e descesse algumas escadas que levavam a uma porta antiga, dava acesso ao porão, se subisse as escadas chegaria aos quartos. Vinte metros após a porta da frente ao lado direito tinha uma entrada que levaria a cozinha, da qual poderia ser acessada também pela porta dos fundos. Havia uma piscina um pouco menor que uma olímpica no jardim, esse estava devidamente podado. Em frente a ela tinha um piso de madeira com algumas cadeiras para piscinas, Tom as comprou antes de fazer aquela viagem para Irlanda que parecia não ter fim. Raramente a usava, não queria ficar bronzeada.

Para o salão tinha comprado persianas de painel brancas. O dia não tem capacidade de matar-me, mesmo que o contato direto da minha pele com a luz do sol tenha a capacidade causar ardência aos olhos nos primeiros minutos, o que prolonga-se a um pouco menos de uma hora onde a pele começa a queimar. É realmente muito mais demorado do que alguns filmes mostram, nós não entramos simplesmente em combustão. No entanto, filmes possuem em entre duas a três horas, por isso não possuem tempo para mostrar alguém queimando viva por seis, seria maçante para a plateia que necessitaria de um intervalo para fazer suas necessidades, algumas bexigas não têm tanta resistência. Seis horas era o verdadeiro tempo, numa média considerando margem de erros, para alguém como eu morrer por causa da luz do sol. É doloroso, contudo menos que isso não é letal, irá carbonizar, mas até isso é totalmente recuperável. Iria morrer algum dia, mas não hoje, espero que não.

O que sou torna qualquer dos sentidos mais apurados, e qualquer comida com cheiro de podre. No que diz respeito às bebidas, principalmente, as destiladas tem um gosto inacreditavelmente melhor. Por isso, as aprecio. O melhor de tudo, é que não consigo ficar bêbada. Tentei uma vez com cinco garrafas de vodca. O que posso dizer em defesa? Não foi uma das minhas melhores fases. Quanto ao cigarro, gosto de perceber o quanto ele acrescenta a uma cena nos filmes mudos. Por volta de 1940, era dito que os cigarros possuíam filtros que ajudavam a respirar melhor, até Papai Noel vinha estampado nas pequenas caixas, o bom velhinho encorajando o povo americano a encher os pulmões com um pouco mais de alcatrão. Apenas duas décadas depois, o câncer do pulmão surgiria atemorizando as vidas dos cidadãos que pagavam seus impostos, assim como a indústria do Tabaco que mostrou um vigor tenaz sobrevivendo aos ataques da Reader’s Digest e do Governo Federal. Em pensar a imagem que o cigarro possui atualmente. Os tempos mudaram, e eu não. Não pude ao menos tentar. Era uma maldição não envelhecer, irônico, não?

Na parte lateral direita do salão havia um bar, com várias bebidas, como Jack DanielsJose CuervoJim Beam e Johnnie Walker. Não que eu fosse beber, mas poderia. Se recebesse visitas, que tipo de anfitriã seria se não tivesse nada para oferecer? Não estava planejando baile algum, e nunca fui de fazer festas, no entanto, com Thomas era diferente. Além do salão, havia um lugar próprio para assistir a filmes, que poderia ser acessado a partir do meu quarto. Não precisava puxar um livro numa estante empoeirada para que fosse revelada uma passagem secreta, como nos antigos filmes, na verdade, era um interruptor, que abriria uma parede falsa, e por ela eu chegaria a sala com um projetor apontado para uma tela monstruosa, de tamanho similar ao diâmetro das arenas dos antigos anfiteatros romanos, acredite quando digo que não cometo um exagero. Era possível ver os filmes numa televisão, mas a tela teria minha total atenção, pois até os mínimos detalhes são intensificados. Além do que, quando se trata de filmes sonoros, ou dos silents (mudos), com música e efeitos sonoros sincronizados, a acústica das salas de cinema é incomparável. Ao desligar as luzes principais, as quatro laterais se acendiam emitindo um brilho incandescente e fraco. Não havia janelas, ou qualquer outra fenda pela qual pudesse entrar luz solar. Havia um ar-condicionado central, o chão era revestido por carpete cinza escuro, e alguns metros à frente da tela de projeção estavam dispostas doze fileiras com dez poltronas cada, de couro marrom envelhecido. Ao estar reclinada numa daquelas poltronas, o teto era aparentemente infinito tal qual a abóbada celeste.

Coloquei uma calça jeans skinny da Burberry preta com bolsos laterais, uma blusa de cetim cor creme, um cinco preto marcando a cintura, que havia comprado na net-a-porter. E um tênis All Star branco baixo, que eu comprei porque o vendedor disse que era o tipo de tênis que muitos adolescentes usavam, então pensei que iria ajudar a camuflar, e o perfume era Chanel 5. Coloquei um batom malva, e um pó compacto um pouco mais escuro que minha pele, o que não era muito difícil, minha pele estava entre o branco e moreno claro. A maquiagem ajudava muito quando não me alimentava direito, pois sempre que isso ocorria, minha pele ficava clara de modo anormal. Fui à cozinha me alimentar. Pelo menos no primeiro mês precisava dobrar a dose de sangue para que não acontecesse nenhum tipo de acidente, não me perdoaria. Não por matar alguém, mas por decepcionar meus amigos.

Os amigos mais próximos que tenho são como eu, os conheci quando estava com Tom, depois de uma das raras vezes que saí para me alimentar, preferia o sangue do banco sanguíneo ou quando este faltava, bebia o de animais, que só para constar tinha um cheiro desprezível e não alimentava, uma vez foi o suficiente para perceber que não há como viver de sangue de animais, e sinceramente se tiver que escolher entre matar um animal ou um humano, o último tem um gosto melhor e tenho pena de matar animais, eles sempre foram melhores que humanos, até os ratos. No entanto, matar pessoas não era uma alternativa, pelo menos não nas últimas quatro décadas. Não gostava de parecer com quem me transformou, já havia me influenciado o suficiente. Poderia ser só uma desculpa para não aceitar o que havia ocorrido, mesmo assim quem se importa? Qualquer sangue do banco conseguiria saciar minha sede. Ah! Quase me esqueci, além deles, há Peter. Como poderia esquecê-lo? Foi entre esses pensamentos que ouvi o barulho de carro batendo nos pedregulhos da estrada perto da minha casa, deveria ser meus amigos. Então, peguei minha mochila de couro preta que estava em cima do sofá da sala de estar, saí e tranquei a porta.

Há primeira vista, pensei em como Dieter e Eve estavam iguais, intactos pelo tempo, tantos anos e não havia uma mínima mudança a não ser o corte de cabelo, o resto em nada havia mudado. Depois, ao chegar mais perto, percebi alterações que só pessoas como eu veriam, porque aos olhos humanos que são fracos e se desgastam com o tempo, não haveria diferenças. Não tinha cicatrizes na superfície, pois nos curamos rápido. Nós três bebíamos sangue humano, mesmo que fosse essa coisa horrível e gelada ao qual tento me acostumar, e que simplesmente não consegue ser tão nutritivo quanto o da fonte. Por isso, aparento estar constantemente fraca, como se não dormisse há dias. E antes de perguntar, o gosto não melhora se tentar esquentá-lo, por isso não pense bobagens. Tentei, mas é claro que eu sabia que não daria em nada. De qualquer modo, custou-me um micro-ondas. Só o havia comprado, pois ele fazia parte do meu projeto de manter as aparências, não me importei quando espirou sangue para todos os lados, e a cozinha ficou parecendo com a cena de um crime, cujo assassino já havia se livrado do corpo, mas deixado parte das tripas para trás. Não me importava se havia quebrado alguma peça interna dele. Tenho certeza de que não possuo capacidade para cozinhar. Quando era humana havia muitos empregados que preparavam minhas refeições, por isso nunca precisei aprender, mas admito que não saber regular o tempo correto de aquecimento num micro-ondas deve-se unicamente a minha aversão por qualquer tecnologia do século XX, em minha defesa estou tentando mudar. Até por que quem iria me querer se eu não sei nem cozinhar?

Eve estava usando um vestido floral justo. Os cabelos lisos e loiros estavam cortados um pouco abaixo do ombro, os olhos castanhos claros estavam brilhando contra a fraca luz ao entardecer, que esgueirava-se no horizonte num dia de agosto. Eles saíram do carro para me cumprimentar, e eu sorri. Mudanças mesmo que necessárias, me deixavam atormentada, não estudava numa escola há muito tempo, e a última vez não saiu como esperado. Deve saber que um plano por mais certo e prático que pareça quando executado algo sempre sai errado, por isso tento a todo custo não planejar meu dia. E aquele, em especial, seria um belo e grande erro, por isso não faço planos. Afinal, estes estarão suscetíveis ao acaso.

— Anna! Nem adianta mudar de opinião no caminho, por que não fiquei esses últimos meses tentando te convencer, e agora já está aqui. Então, preparada para conhecer gente nova e sair dessa monotonia? — Dieter olhou de esguelha para a fachada da casa, que estava a mais de vinte metros de distância, enquanto me dava um daqueles abraços de urso. ― Sério você precisa aproveitar mais sua eternidade já que a possui.

― Dieter, nós iremos à escola ou visitar o James Bond? ― Dizia olhando perplexa para o belo carro que estava estacionado na calçada, o exterior era preto metálico e o interior forrado com couro cor creme.

― Aston Martin Rapide, o primeiro com quatro portas, de 0 a 100 km em 5,3 segundos, 477 cv de potência. O interior do carro parece o de um jatinho particular, e eu estou bem. ― Ele dizia se gabando e muito feliz apresentando o novo carro, não conseguia esconder o orgulho, ninguém conseguiria com um carro como aquele. ― Quando o comprei, estava em dúvida entre ele e o Lamborghini Estoque, eu só não levei os dois por que não saberia qual escolher, e teria pena do que ficasse na garagem. — O que acha Anna?

Assim é Dieter, felicidade para ele é muitas vezes ligado a poder aquisitivo, tendo um carro como esse qualquer um ficaria animado, mas nem por isso ele é supérfluo. Na realidade, é o melhor amigo que tenho, é aquele que ajuda a qualquer hora, assim também é Eve. No passado, ele me ajudou muito, de um jeito que nunca pensara que fosse possível. Chamava atenção pelos olhos verdes escuros que eram muito expressivos. Impressionantemente sempre estava com o cabelo arrumado, mesmo que dissesse que não dava importância a isso. Fazia o tipo esportivo, adorava fazer atividades radicais, como pular de asa delta e escalar montanhas. Me chamou para acompanhá-lo no recesso do início do ano, estava na Baviera. Recusei, tenho preguiça de socializar mesmo que seja a 2.500 metros de altura coberta de neve. Ele amava carros por causa da velocidade. Já eu preferia os antigos, principalmente os clássicos, quando conversíveis, melhor.

— Acho que está tentando me persuadir a comprá-lo! — Brinquei ao colocar a palma da minha mão esquerda sobre os olhos, uma improvisada proteção ao calor ameno — Ele parece muito bom, mas eu realmente não entendo muito sobre carros.

Conhecia poucas marcas e modelos de carros, Porsche é o meu predileto, mas com exceção de modelos de carros não sabia muita coisa. Sem motivo aparente, isso me fez pensar em como se portar na frente de humanos, quase não sabia sobre gírias atuais ou coisas parecidas. Provavelmente ficaria muito envergonhada se utilizasse gírias de cinquenta anos atrás. Quero dizer, se tivesse um encontro não o deveria classificá-lo como formidável. Só o que sabia era que estava muito feliz por vê-los, talvez a ideia da escola fosse realmente boa, iria mudar minha rotina, pensando melhor ficar em casa não é o que pessoas comuns classificariam como rotina.

― Ele não parece uma criança quando se trata de carros? ― Eve perguntou rindo, enquanto o abraçava. Ela estava do jeito que sempre fora, do jeito que me recordava. Sempre ajudando a todos, era uma ótima amiga. É casada com Dieter, mesmo que só eu e Tom saibamos. É raro dois adolescentes de aparentemente dezessete anos casados. Assim que entrei no carro aceleramos para escola. Quem estava dirigindo era Dieter, um amigo quase setenta anos, se isso não fosse amizade não poderia classificar algumas das minhas relações com humanos. Estava mais que provado, seríamos amigos para sempre.

― Que música é essa? ― Era bem alta, e começava como uma canção de ninar, se estivesse em casa, no meu quarto, ainda poderia ouvi-la. Leve em consideração que vampiros podem escutar algo que ocorra há quadras de distância, sobre isso há muito havia adquirido controle, só ouvia se quisesse.

― “Nightmare” (Pesadelo), do Avenged Sevenfold. ― Eve me respondeu ― E, por sinal, essa música é incrível.

― Precisa ser tão alto? ― Não havia razão para perguntar isso sabia a resposta, eu mesma não ouço nada de outro modo, faz parte da fuga da realidade.

― Anna, nós somos adolescentes incompreendidos, querendo que o mundo exploda em pedaços. A vida é uma droga, precisamos descontar em algo. ― Disse Dieter rindo e tirando a mão esquerda do volante e a colocando no coração, como se estivesse a ponto de uma crise existencial.

― Ah, se for assim, tudo bem, é um bom argumento. Se for para não ter uma crise, rock é a melhor escolha. ― comentei, com ares de Ph.D no assunto.

― Então, Tom ainda está na Irlanda? — Eve perguntou.

Tom foi o primeiro que conheci desde minha nova vida, nova vida porque tentei mudar, se obtive êxito ou não é diferente. Estávamos em 1911, e foi reconfortante conhecê-lo, pois comecei a pensar que vampiros não conseguiam se reconhecer ou que talvez fosse à única, o que seria impossível dado às circunstâncias do que é necessário para se transformar. O conheci na França, havia decidido deixar a Inglaterra algumas décadas antes. Havia vários motivos para isso, e foi uma despedida nada amigável. O medo que alguém descobrisse meu segredo motivou-me a ir, sem ao menos, olhar para trás.

Tom e eu já estudamos juntos, mas foi há muito tempo, na década de 1920. Tantas lembranças voltavam tantas imagens que se aglomeravam em minha mente como fotos danificadas. Aconteceram tantas coisas, coisas que eram impossíveis de se esquecer, eram muito importantes, às vezes, não acredito que já tenha passado.

― É ainda está lá. —Eu disse a Eve — Há alguns dias recebi uma carta com um postal de Dublin. Você sabe como ele gosta de lá e, além disso, voltar a estudar não é uma opção para ele. Ele ganhou bastante dinheiro no final dos anos 80 com aquelas ações da Microsoft, desde então ele decidiu tirar férias. Além disso, não poderia passar por aluno de ensino médio. Se por outro lado, fosse uma faculdade seria mais fácil convencê-lo. Mas não conseguiria persuadir ninguém a vir num lugar como esse. É uma perda de tempo. — Eu respondi a Dieter inclinando a cabeça em tom provocativo.

― Uma carta? ― Dieter perguntou num tom surpreso ― Não é muito comum para conversas hoje em dia. Ele ainda não sabe usar o Facebook? Celular? Iphone? Ipad? ― Perguntou sabendo que todas as opções estavam se esgotando.

― O celular ele sabe, pelo menos isso. Já o Facebook acredito que não, duvido que ele saiba que existe. E o Iphone é quase o mesmo que o celular. E o que é Ipad? ― Eu perguntei enquanto endireitava o cinto da blusa que estava caído para o lado direito.

― É uma espécie de computador de mão da Apple.

— Anna, eu tomei a liberdade pegar seu horário escolar, á propósito, seu primeiro tempo é de física, com o Sr. Spencer. Já que você já preencheu o formulário quando foi à escola nas férias, creio que possa ir direto para aula.

— Humm, obrigado Eve, realmente muito obrigada. Isso irá me poupar tempo, e quanto menos eu tiver que falar com pessoas será mais fácil evitar a vontade de… Bem, agora é melhor parar de falar nisso está me dando fome. — Mesmo tendo acabado de tomar meu café da manhã, ás quatro em ponto, o primeiro dia de aula é complicado, foi da última vez, sabia que agora seria o mesmo, é uma questão de se adaptar, depois disso fica mais fácil. Espero.

Dieter e Eve já estudavam há um ano e percebendo a calma que eles tinham no quesito escola, na realidade não a escola necessariamente e sim os alunos que nela estudavam, foi fácil me convencerem. Enquanto falavam passavam serenidade e controle absoluto, o que não significava necessariamente que eu também teria. A sede por sangue era, e continua sendo quase insuportável para mim, no entanto, tentava não agir por impulso, por pura sede, minha garganta doía quando eu chegava perto de pessoas sem estar alimentada o suficiente, talvez por me preocupar mais dos que os outros. Devo ser a única que com mais de dois séculos continua tendo problemas para se controlar.

― Estamos quase chegando, faltam uns dois quarteirões ― Disse Dieter enquanto entrava numa rua estreita.

― Dieter, você pode mudar a música para “Seize the Day.” ― Disse Eve ao apontar para o pen drive preso ao som do carro. — Aposto que gostará dessa, é também do Avenged Sevenfold.

― Eu não gosto muito de rock.

― Que mentira! ― Ela disse com olhar de reprovação ― Você deveria se envergonhar disso, se me lembro foi você que me fez gostar de rock. Nos anos sessenta quando eu ia à sua casa sempre estava tocando alguma música, na maioria das vezes no volume máximo. Quando eu tentava falar algo com você e aquelas malditas músicas ecoavam do outro lado da casa. Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Beatles e Rolling Stones eram frequentes. Algumas vezes tocava Blues e música clássica, mesmo assim, era muito mais rock. ― Ela dizia tudo muito rápido enquanto a música que ela pediu a Dieter havia começado a tocar, possuía um ritmo mais lento que a anterior.

― Os sessenta tinham uma cor diferente. Agora, tudo é cinzento e velho.  Mudei um pouco. ― Eu estava muito mais insegura do que há um mês, e gostaria de ser deixada a sós com meus pensamentos.

― A mudança foi repentina! Pensei que estivesse ouvindo Pink Flody, Motörhead, The Doors e Scorpions, há menos de um mês quando estivemos em sua casa. ― Disse Eve em tom reclamativo. — O que está acontecendo é que sua música está parada no final dos anos setenta, provavelmente por causa de Peter, você realmente precisa…

― Não o mencione. Não tem esse direito. ― protestei, a interrompendo e colocando as duas mãos no rosto, querendo esconder algo que era visível a todos. Havia ficado um pouco nervosa e impaciente, foi um exagero. ― Me desculpe.

― Eve. O que eu disse? Foi difícil convencê-la a vir, e agora, fala dele? ― Dieter disse parecendo desapontado, tirou uma das mãos do volante e segurou a mão dela, enquanto trocavam olhares por mais tempo que o necessário.

― Dieter, eu realmente me exaltei, prometo que não acontecerá novamente. Vocês têm sido tão bons. ― Eu respirei por dois segundos e abaixei a cabeça, como se quisesse esquecer algo. ― Você está certa, foi há décadas, é infantil da minha parte ainda me importar. E quanto à música provavelmente gostarei delas em uma ou duas semanas, é do tipo que gosto, só mais moderna. ― Completei com um sorriso quando na verdade queria chorar. E, sinceramente, não sou sentimentalista. Mas temo pensar que há exceções.

― Então, estamos bem? ― Eve perguntou parecendo cautelosa.

― Sim, estamos. ― Eu respondi parecendo melhor.

― Chegamos. ― Assim que Dieter falou vi em letras medianas feitas de metal escrito “Westminster High School”. Do portão dava para ver que havia muito poucas árvores ou flores, só havia um gramado cortado bem curto que ia do portão até as vagas dos carros e que também servia para dividir o espaço entre as mesmas. Era realmente diferente da que eu havia frequentado da última vez, que tinha muitas árvores e folhas, e um grande jardim. Hoje provavelmente estas davam espaço para um número muito maior de salas, eram muito mais estudantes.

― Bom, é maior do que eu imaginava, são muitas pessoas ao mesmo tempo. Pensei que por ser nesse horário houvesse menos pessoas. ― Admito que não estava acostumada a isto, estar perto de tantas pessoas ao mesmo tempo me dava náuseas, mas já estava na entrada do colégio, e não poderia decepcionar Dieter que ficara o verão inteiro tentando me convencer a voltar a estudar. Teria que encarar a realidade, não dava para se esconder dela para sempre, alguma hora, mesmo que não fosse por causa da escola, seria obrigada por uma determinada situação a estar entre um amontoado de pessoas, e a sede voltaria. O melhor seria começar a me acostumar isso, teria que me adaptar.

― Não se preocupe Anna, não é tão difícil, é uma questão de dias para se acostumar, puxa você tem mais de dois séculos, é mais que fácil com essa idade dominar a sede. —Eve olhava para mim, ao me dizer estas palavras me tom acolhedor. — Nem tudo que tentamos e que falhamos é nossa culpa. Não é porque se falhou no passado é que cometerá os mesmos erros no presente, nós aprendemos. Tenho certeza que não encontrará problemas.

Também tenho certeza disso, pensei. São os problemas que me encontram. Tal como um imã, os atraio.

As palavras de Eve eram acolhedoras, sabia quanto eu estava aflita, talvez conseguisse lidar com a situação melhor que eu, mesmo que esta fosse muito difícil para mim. No passado eu era… Se pudesse definir em uma palavra esta seria, impulsiva. Por isso era complicado, era mais fácil quando não me importava nenhum pouco.

— Há menos pessoas na escola, precisava ver como isso fica de manhã. Não vim de manhã é claro, mas conheço alguém que estuda de manhã, ele vive reclamando sobre a dificuldade de encontrar uma vaga para estacionar. No período noturno não tem nem a metade das pessoas que há de manhã. ― Dieter afirmava pacientemente enquanto entrava no estacionamento da escola.

― Há pouco tempo pensava que só faculdades tinham aula á noite. — Eu disse ao olhar para o lado de fora. Eve tentou me tranquilizar com uma mentira. Era pessoas suficientes para causar um estrago em potencial.

― Faremos o seguinte: Tente se acostumar com a escola num prazo de uma a duas semanas se conseguir continua, senão, bem você pode sair a qualquer hora. Inventaremos uma boa desculpa. ― Dizia Dieter enquanto manobrava o carro na pequena vaga. ― No início é realmente um pouco complicado, como já sabe, pois não se está habituado à proximidade com humanos e o cheiro de sangue a preencherá, Estará com sede, mas em alguns dias você será indiferente a ela.

Aquela conversa estava sendo difícil, sabia exatamente sobre as complicações nas primeiras semanas, no entanto queria suprimi-las de minha memória. Remetiam-me lembranças que doíam por dentro. Nem sabia se vampiros possuíam coração, não de forma literal, mesmo que não o tivesse já havia o sentido, como se esta fosse uma parte humana esquecida. Estava tendo novamente aqueles momentos de melancolia. São terríveis! Era aconselhável mudar minha prescrição médica, mas por hora não faria nada a respeito.

― Vamos ― disse Eve com pressa e com ar de preocupação enquanto olhava o relógio no pulso, parecia ser um modelo antigo que aparentava estar intacto, deveria ter muitos anos. Havia acabado de me lembrar, ela nunca o tirava do pulso, todas as vezes que a havia visto estava com aquele relógio, provavelmente deve ter sido presente de Dieter. ― Faltam uns cinco minutos para aula começar.

― Como vou saber qual é a sala? ― perguntei a Eve enquanto saímos do carro. ― Eu realmente preciso de uma atualização para o século XXI.

― Talvez eu possa dar um upgrade. ― Disse Dieter ao sorrir.

― Está aqui. ― Eve disse ao apontar para o horário que eu estava segurando. ― Junto dos horários está a matéria, a sala, e o nome do professor. Está vendo que há um traço entre entres os primeiros três tempos e os últimos dois, cada um de cinquenta minutos? Então, este é o intervalo para comer alguma coisa. Bem simples.

― O que eu vou fazer sobre isso? ― perguntei ao sentir súbita paranoia, por estar perto de tantas pessoas.

― Sobre isso, nada pode ser feito além de fingir comer algo, costuma funcionar. O intervalo é entre sete e meia ás oito horas, depois é só ir para a próxima aula. Vejo vocês no intervalo. Boa sorte, Anna! — Eve disse atenciosamente antes de virar as costas, e ir na outra direção.

Dieter comparava nossos horários quando percebi que tínhamos o primeiro tempo de Física juntos, e o segundo de História Geral também. As duas aulas eram na mesma sala. Dieter e eu fomos para o segundo andar. Enquanto que Eve fora para aula de Química I, também no segundo andar.

Quando finalmente chegamos à aula de física, pontualmente, Sr. Spencer fez questão de apresentar os alunos novos. Havia uma garota um pouco mais alta que eu, chamada Carrie. Tinha olhos verdes claros, cabelo preto, e pele morena clara. Era tímida, podia-se perceber pelo tom de voz e postura. Colégio novo fazia isso, principalmente se não se conhecia ninguém. Logo que a apresentação acabou sentei numa cadeira na terceira fileira ao lado de uma garota de pele clara e cabelo ruivo natural, cortados aproximadamente dez centímetros abaixo dos ombros, olhos verdes escuros, e uns quatro centímetros mais baixa que eu.  Provavelmente era uma antiga aluna, pois havia comentado quarenta minutos depois que me mostraria o colégio.

Havia uns trinta alunos, a sala era mediana, parecia sido feita inicialmente para uns quarenta, por isso parecia grande e as pessoas estavam distribuídas de modo desigual. As cadeiras eram de cor marfim tal como as mesas, e o quadro branco.

Talvez, até aquele momento ainda não sabia, mas eu deveria ter problemas em física. Afinal tantos anos sem estudar, antes das aulas até havia lido alguns capítulos para relembrar os assuntos, mas os livros estavam desatualizados o que dificultava o entendimento. Da última vez, não tive nenhuma dificuldade nessa matéria e sempre conseguia ficar na média.

― Muito bem, quero que vocês abram o livro no primeiro módulo, página quinze ― Era o capítulo sobre Teoria de algarismos significativos, primeiro tópico. ― Antes de começarmos quero pedir que prestassem atenção nessa matéria, pois se não a entenderem não vão entender os próximos módulos, essa matéria é acumulativa. Ou seja, precisarão usar essas mesmas fórmulas até as provas de final de ano.

O Sr. Spencer deveria ter um pouco mais de quarenta anos, olhos castanhos, usava óculos, cabelos pretos curtos, aproximadamente um metro e setenta, estatura mediana, aparentava seriedade com a matéria. E como grande parte ociosa da sociedade, tinha alguns quilos a mais do que seria recomendado. O tipo de professor que não admitia brincadeiras enquanto explicava a matéria, mas em caso de dúvida explicava quantas vezes fosse preciso até tirar a dúvida dos alunos.

A verdade é que eu não estava entendendo muito, seria uma façanha entender a matéria do terceiro ano se eu havia feito o segundo ano há mais de oitenta anos. Até que, surpreendentemente, lembrava remotamente de alguns nomes e fórmulas. Até a metade do primeiro tempo grande parte das pessoas estava prestando atenção. Mas a cada vez que o professor colocava mais uma fórmula no quadro e ia explicando menos gente estava se importando, até que, enfim o sinal tocou. No segundo tempo, tive aula de Historia Geral, nada realmente interessante ocorreu e a aula passou rápido.

Depois, tive aula de Biologia I, no terceiro andar. Bom, nem Dieter ou Eve estavam nessa aula. Não gostava muito dessa matéria, e pelo que percebi, não só ela como a maioria das matérias estava divididas, em duas, ou até mesmo três tipos. O nome do professor era Sr. Smith, ele apresentou os alunos novos, falou um pouco da matéria, e como havia chegado quinze minutos atrasado, a aula foi bem curta.

Quando estava no corredor indo para o pátio, pátio não. Refeitório parecia mais adequado para os dias atuais. Então, quando estava chegando a ele, a garota que estava ao meu lado na aula de física se dirigiu a mim. A propósito, eu a tinha visto também na aula de biologia I. Ela conversava de modo bem desinibido com um garoto que eu não havia visto antes. Deveriam se conhecer.

― Você é nova aqui, não? ― Disse ela se apresentando. ― Eu sou Julie, estou indo para o refeitório pode vir comigo.

― Claro, alias, eu sou Anna. — Eu respondi me apresentando.

―Prazer. Então, você veio de que escola? ― Ela perguntou enquanto descíamos a escada para o primeiro andar e viramos à direita.

De que escola eu vim, não havia pensado nisso. Algo tão simples, eu tentei recordar qual era o nome da escola anterior, algo relacionado a St. Tinha certeza que era relacionado com o nome de algum santo, só não lembrava exatamente qual. Poderia dizer qualquer nome, não é como se fosse ser investigada, e meu telefone grampeado pela Scotland Yard.

― Eu estudava na-na… Outra cidade. ― Disse impacientemente, era horrível. Só queria encontrar Eve.

― Sim, mas em qual escola? Talvez eu deva conhecê-la. ― Disse a garota insistindo em saber sobre meu passado. Aquilo estava me deixando aborrecida.

― Oliver Cromwell High School, fica em Liverpool. ― Disse de modo rápido, nem sabia se essa escola existia ou não, de um modo ou de outro era ainda melhor do que não ter dito nada, ou dizer que não me lembrava, pois deveria estar estudando lá ano passado. Considero-me relativamente nova para ter mal de Alzheimer.

― Não essa eu nunca ouvi falar. ― Ela dizia enquanto caminhávamos ao lado de várias pessoas que iam na mesma direção.

― Então, por que está estudando no período noturno? ― Eu perguntei desinteressadamente.

― Eu? — Ela indagou a si mesma. E continuou em tom declarativo — Graças a minha mãe que mesmo que eu a ame é um pouco irresponsável, e deixou para renovar a matricula na última hora, depois da viagem terminar, há uma semana. E só havia vaga disponível nesse turno. E você? Ei… ― Ela perguntou quando um garoto mais alto que ela, que passava correndo em direção ao refeitório, esbarrou nela.

― Aconteceu o mesmo. ― Na realidade, se eu estivesse estudando de manhã pelo tempo exposta ao sol queimaria até morrer, por que sou o que você chamaria de vampiro. Não poderia dizer isso a ela, que já estava num mundo imperfeito, talvez, a revelação de algo como isso, fosse um choque demasiado forte. Alguns desmaiam, outros têm um ataque cardíaco. O olhar que fazem quando tomam consciência do que sou… Aquele olhar é impagável.

Assim que eu havia acabado de falar estávamos no refeitório, e lá ao fundo, numa mesa do outro lado do refeitório e longe da cantina, estavam Eve e Dieter.

Sabia o que viria a seguir, Julie provavelmente perguntaria polidamente se não iria querer sentar com elas e os amigos dela, e eu de um jeito desconcertante iria recusar. Era melhor ficar o mais afastada possível de qualquer um, por mais que tenha conseguido até mesmo esquecer sobre a fome na maior parte das aulas, o número de pessoas era bem maior que numa sala.

― Você quer sentar com a gente? ― Julie estava indo para o lado oposto à mesa onde Dieter e Eve estavam sentados. Havia umas quatro pessoas na mesa onde Julie estava indo se sentar.

― Ah desculpe. Esqueci de mencionar, alguns amigos meus estudam aqui desde o ano passado, eles estão no fundo do refeitório me esperando.

― Tudo bem, a gente se vê depois. ― Ela disse se despedindo

Havia acabado de olhar para trás, para a mesa, Dieter tinha dado um olhar do tipo não tem problema se você sentar aí. Ignorei, e continuei andando com a cabeça ereta, um pé atrás do outro, fingindo respirar a intervalos regulares.

Já estava começando a ficar com os lábios secos e com a garganta doendo um pouco. O problema era que ficar conversando com tantas pessoas me daria dor de cabeça, uma sede, mesmo que já estive me alimentado antes interagir com uma porção considerável de pessoas e sentir a respiração, o ritmado fluxo sanguíneo, era cansativo tentar ignorar, muito mais prático fazer algo a respeito. Tinha medo de não me controlar, medo de me expor, por conseguinte, expor meus amigos. Por que mais que me dissessem para não me preocupar, todos meus semelhantes já haviam passado por isso, eu já havia passado, mas foi a um intervalo de tempo suficientemente grande para que agora estivesse desacostumada. Poderia imaginar-me bebendo sangue, seria menos cansativo. Todos os dias que fosse para escola sentiria isso novamente até que um dia estaria habituada, mas até esse dia chegar não seria nada fácil, por isso preferi sentar com meus amigos, talvez, perto deles a ânsia parasse.

Atravessando o refeitório do lado oposto ao da cantina vi Dieter e Eve sentados numa mesa conversando, supostamente sobre mim.

― Sente-se aqui. ― Disse Eve preocupada ― Você está bem?

― Não, acho que é mais difícil do que eu pensava. Até algum tempo atrás estava bem. Estar perto de tanta gente não me faz bem, traz algumas recordações que tiveram fins catastróficos. — disse a Eve, ao sentar na cadeira, lívida, ao lembrar de algumas regras básicas. Respire a intervalos regulares, pisque a cada oito segundos, e mostre a eles que você não é um cadáver. Não posso esquecer disso.

— Estava com um pouco de vertigem desde o início, mas tem muito mais gente aqui do que na sala ou na hora da entrada. Essa não foi uma boa ideia. — constatei, ao olhar para Dieter.

― Você se alimentou direito de manhã? ― Perguntou Dieter.

― Bebi dois copos. — Respondi, como se aquilo não tivesse sentido algum. E não fazia, devia fazer o que me fizesse sentir livre. Dirigir um carro a duzentos quilómetros por hora numa estrada vazia. Mas ao contrário, estava aqui: Uma jaula para jovens humanos com excesso de espinhas e gosto duvidável para música.

― É muito pouco, ainda mais se é seu primeiro dia na escola. Ficou trancada naquela casa nos últimos dois anos… Deveria ter bebido um litro de sangue, você não está acostumada. ― Eve falou com uma voz baixa a ponto de só que estava sentado à mesa escutar. ― Em todo caso tenho um pouco na minha mochila, para emergências.

― Tom estava comigo até dois anos atrás, até que se decidiu por aquele tour pela Europa. ― Eu comentei queixando, ele não deveria ter ido.

― Eve! — Dieter ralhou ao colocar a mão sobre a mochila dela — Você não pode fazer isso, é arriscado. E se alguém abre sua mochila e encontra isso lá dentro, que explicação você vai dar? ― Ele perguntou num tom de repreensão, mas mantendo a voz baixa.

― Uma explicação mais simples do que se Anna atacar alguém na frente da escola inteira! ― disse Eve de modo calmo e enfático ― E, além disso, é o primeiro dia dela na escola. Ano passado quando voltamos a estudar eu também havia trazido e se eu me lembro bem, você precisou. É só até ela se sentir melhor.

― Primeiro é melhor falarmos mais baixo, segundo Anna você realmente acha que precisa? ― Perguntou Dieter

― Talvez não, quero dizer depois do intervalo não terá tanta gente é possível esperar. A partir de amanhã serei mais precavida.

― Ótimo. — Eve disse respirando calmamente.

― Respira fundo, você não vai dar uma de Miriam BlayLock para cima de alguém. ― Disse Dieter, só não sabia se era para me acalmar ou me deixar mais irritada.

― Isso é para me acalmar? — Eu perguntei — Ainda não tenho nenhum namorado, e muito menos tenho o desejo de transformar alguém. Mas aceito a comparação.

Miriam é uma personagem do filme The Hunger, uma vampira feita no cinema pela Catherine Deneuve, também protagonizaram o filme David Bowie e Susan Sarandon. Sendo que todos os amantes de Miriam envelhecem depois de alguns séculos. Estão condicionados à envelhecer rapidamente, meses em minutos, até que fica irreconhecível, mas não morre. O amante dela, feito pior Bowie, procura ajuda médica quando percebe que está envelhecendo, sendo que de nada adianta. Quando isso ocorre, ela o armazena em um caixão, tal como foi feito com os antigos amantes. Virou Cult nos anos oitenta por causa da iluminação fraca, fotografia escura, em estilo gótico. Foi o primeiro filme do diretor Tony Scott. Quando fui vê-lo no cinema foi muito comentada a cena lésbica entre Miriam e Sarah, personagem feita por Susan Sarandon, logo após Sarah aceitar ser a nova amante dela. “The Hunger” (Fome de Viver) mostrava os vampiros, do modo que vampiros deveriam ser no cinema. Os filmes atuais sobre vampiros me decepcionam.

― Você entendeu meu ponto de vista. ― Disse Dieter

Ficamos esperando o intervalo acabar, totalmente quietos. Dieter e Eve fingiam beber um refrigerante que haviam sido abertos, e os dois croissants pareciam estar mordiscados nas pontas. Não entendia para que se dar ao trabalho de comprar algo só para fingir que fosse comer. Seria desperdício, e qualquer pessoa normal poderia ficar sem comer nada no tempo livre, manter as aparências era superestimado e cansativo, não podia me lembrar de piscar os olhos a cada oito segundos. Assim que o sinal tocou acenei em despedida aos dois, e fui para o tempo de Química III, estava realmente empolgada para aprender sobre química orgânica, era algo a ver com Formulação de compostos orgânicos, estava escrito na ementa escolar.

O resto do dia passou do mesmo jeito que o início. Fui para a aula de Química. Da última vez que tinha estudado, tinha muitas dificuldades em entender, estudava dias antes e revisava no dia anterior a prova e mesmo assim, algumas vezes, tirava notas baixas. Preocupava-me demais, deveria este ser o problema. Por isso, não era uma matéria que excedia alguma expectativa, era a que menos gostava. O professor Sr. Cavendish era diferente do primeiro professor, parecia ser mais alegre, entretido com a matéria. Aconteceu algo estranho, eu odiava aquela matéria, tinha problemas para estudá-la no passado, e do nada comecei a gostar, ao final da aula o professor passou alguns exercícios do capítulo de funções orgânicas, eram só um tempo e aula praticamente voou.

Depois fui para o terceiro andar para aula de sociologia com a Srta. McGinty. Deveria ter entre trinta a trinta e quatro anos. Dava aula de um modo mais dinâmico que os professores dos tempos anteriores e tudo correu normalmente. Por volta de nove e quarenta da noite quando as aulas acabaram fui ao estacionamento e encontrei com os outros perto do carro. Quarenta minutos depois estava em casa, demorou um pouco mais que na ida, devido ao engarrafamento. Acenei em despedida quando estava no gramado em frente à casa. Dieter e Eve disseram tchau, depois ele buzinou, e foi embora. Peguei o chaveiro da Torre Eiffel no bolso lateral da calça, e entrei.

Meu quarto era muito espaçoso, e era só meu. Lá poderia descansar, deveria ter cinquenta metros quadrados. Tomei um banho, vesti um robe vinho que ia até dez centímetros após meus joelhos. Estando faminta, ou melhor, sedenta bebi dois litros de sangue. Devido a isso minha pele parecia seda, era como se possuísse um rouge natural.

Após isso, joguei no lixo as evidências, refiro-me ás bolsas de sangue, e voltei ao quarto. Mais tarde, antes de dormir realmente pensei que se continuasse desse jeito continuaria a ir à escola era só me alimentar melhor e o desconforto passaria. Uma hora ou outra iria me acostumar com isso, e aprenderia a lidar com os problemas, tal como antes; a escola não seria um empecilho.  Se não tivesse pensado isso, poderia ter ocorrido de outro modo. De qualquer forma, não acredito em destino.

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