Capítulo 2 – Supernatural

Mais um novo dia, cinquenta anos sem frequentar a escola faz você quase amá-la, mesmo não parecendo ser possível. O meu arranhado alarme estava função Snooze no volume máximo tocando “I Love rock ‘n’ roll” (Eu Amo Rock N’ Roll). Era quatro e dez, era melhor sair logo da cama antes que perdesse a hora, demorava a me levantar. Acordei com sensação estranha, sentia-me terrivelmente humana, os hábitos estavam mudando, isso era certo. À hora de dormir havia alterado completamente, não é usual dormir de noite para vampiros, havia adormecido ás cinco da manhã. Ficar acordada de dia estava me provocando olheiras e sonolência, não é normal ficar acordada essa hora do dia, mas as circunstâncias pedem isso. Como ontem, acontecia tudo parecido. Então estava certa, iria virar uma rotina.

Coloquei uma calça legging preta e uma blusa de cor cinza, tênis prata. Fui à adega buscar uma específica garrafa de vinho, Tom poderia voltar a qualquer momento, e possuía um gosto diferente do meu, por isso a deixei separada. Logo após tomar o café da manhã, escovei os dentes. Sabia que Dieter era pontual, então faltavam ainda cinco minutos, voltei ao quarto para buscar meu Ipod Touch que havia sido presente da Eve, ela havia me dito que os jovens de hoje em dia adoravam esses aparelhos, então foi o modo dela dizer, “Volta ás Aulas”, sendo que Dieter que colocou as músicas. Basicamente era rock. Havia Lynyrd Skynyrd, Black Sabbath, Metallica, Megadeth, AC DC, Jimmy Hendrix, The Doors, Nirvana, Alice in Chains. Eu gosto dessas bandas, mas deveria colocar músicas clássicas, como as compostas por Beethoven, Mozart, Liszt, Satie, Mahler, Tchaikovsky, entre muitos outros. Adoro rock tanto quanto música clássica, e quanto mais alto ouvi-los, melhor é. E já que, tristemente, não consegui comprar novas músicas pelo Itunes, por que aparentemente não sei mexer naquilo que chamam de computador terei que pedir ajuda a Eve. Além disso, metade das músicas que tenho está em discos de vinil, não iria me desfazer deles nunca. São vintage.

Estava saindo do quarto quando ouvir o carro chegando. Peguei a mochila e tranquei a porta enquanto ouvia Free Bird do Lynyrd Skynyrd no volume máximo. Primeiro, eu dificilmente ficaria surda, segundo é impossível ouvir rock se não for volume máximo, principalmente com o solo de guitarra que essa música possui. Segundos depois já havia entrado no carro. Do lado de fora, parecia o inferno, estava muito abafado, talvez um dos dias mais quentes do ano. Além disso, estava sonolenta.

― Anna, espero que tenha bebido o suficiente, pois Dieter me proibiu de trazer sangue. ― Eve disse enquanto olhava para Dieter indignada.

― Não tem problema. Estou até me sentindo melhor do que ontem, bem melhor mesmo. Claro que toda essa claridade, terei que me acostumar com ela, com exceção disso tudo está normal.

Ontem a noite havia guardado uma bolsa de sangue num fundo falso da mochila e havia o costurado. Assim ninguém, mesmo que mexesse na mochila não o encontraria, assim espero. Há na minha casa um refrigerador, no porão. Para impedir eventuais problemas, a porta dele sempre fica trancada.

― E Tom ainda não te ligou? Ou mandou uma carta? ― Perguntou Eve

―Nada, além daquele postal. Estou começando a ficar preocupada, ele normalmente me liga uma vez na semana, no mínimo só para me dizer como está, nem isso está fazendo. Um telefonema é bem mais prático do que uma carta da Irlanda, ou da Romênia, de qualquer lugar de onde ele esteja uma carta demorará, em todo caso ele deveria telefonar. Tentei retornar a ligação, disquei para o número que Tom havia me ligado, aparentemente não existe mais. ― Disse não conseguindo esconder a preocupação, pois arfava lentamente — Não deve ser nada.

Quando chegamos à escola, no estacionamento havia um carro preto tocando uma música alta e provavelmente atual, pois eu não sabia identificar, o primeiro tempo que era o de inglês eu iria sozinha. Dieter e Eve iriam juntos para o de educação física.

Quando estava subindo as escadas para o tempo de inglês encontrei Julie, a garota do refeitório, ela estava com uma blusa roxa e calça jeans, e só não estava mais sonolenta do que eu, um pouco mais e eu estaria dormindo em pé.

― Ei, bom tarde! Você se machucou? ― Julie perguntou em meio a bocejos.

― Não que eu tenha percebido, por quê?

― Acho que tem sangue na sua blusa.

― Ah, isso? Isso é o resto do meu café da manhã, suco matinal de frutas vermelhas! ― Disse enquanto tocava na pequena mancha na blusa. Era sangue, mas metade do que disse era verdade. ― Você vai para aula de inglês?

— Sim.

— Vamos logo para sala, senão chegaremos atrasadas. — Eu disse a Julie enquanto puxava a bolsa de couro para mais perto.

― Mas isso é viscoso ― Ela disse tocando na parte suja da minha blusa.

― É não é? ― Eu concordei pacientemente ― Esse suco veio de um estoque particular.

― Você as plantou? As frutas. ― Julie indagou interessada ― Nunca conheci alguém que plante frutas ou verduras, parece tão mais prático comprá-las.

― É, minha família, quero dizer, minha mãe gostava das coisas sem agrotóxicos e não confiava muito na limpeza dos mercados, ela sempre foi um pouco compulsiva por limpeza, por isso na minha antiga casa havia um espaço grande só para isso. — Eu disse enquanto subíamos as escadas.

― Deve ser bom saber que os alimentos estão realmente limpos, que não há contaminação, por exemplo, quando minha mãe compra qualquer fruta ou verdura ela as deixa de duas a três horas imersas em água com umas pastilhas que matam bactérias e ele fez a chamada, desde que germes. Mesmo assim deve ser um incômodo cuidar de tudo isso, não é? — Julie perguntou enquanto tirava o celular do bolso.

― Não mais agora por que me mudei, mas se só pensar no incômodo… Você ficaria surpresa em quantas coisas poderiam ser. ― Olhei rapidamente para o relógio ― Está no horário da aula, não é?

Inglês era no segundo andar. Quando chegamos à sala Julie enfatizou que devia ter trazido o casaco, lá fora podia estar abafado, mas a sala estava gelada, isso segundo ela, para mim estava normal, ou seja, não estava sentindo frio. Nós sentamos nas cadeiras perto das janelas, que estavam fechadas. O professor de inglês se chamava Sr. Richardson, mas ele pediu para chama-lo de Brian, era professor novo nessa escola. Falou sobre as escolas em que já havia trabalhado, perguntou o nome de todas as pessoas na sala, deviam estar faltando algumas já que só havia umas vinte e três pessoas na sala. Alguns minutos depois da aula começar ele fez a chamada e pediu para que os alunos assinassem a lista de presença. Ele deu uma pequena introdução à matéria ao escrever no quadro alguns tópicos do livro e número de páginas que devíamos ler para a próxima aula. Não estava prestando muita atenção, estava absorta conjeturando se Tom ainda estaria na Irlanda. Afinal a última vez que tive notícias dele foi através de uma carta há quase um mês, muita coisa ocorre em um mês.

― Ei, pode pegar a minha caneta? Acho que caiu perto da sua mochila. ― Disse uma voz atrás de mim.

Eu e Julie viramos o rosto quase no mesmo momento. Não sei quanto a Julie, mas parecia que eu tinha despertado, devia estar em transe por causa daquela aula, e ela nem era uma das piores. Quase dormia, mas de olhos bem abertos.

― Desculpe o que você disse? ― Perguntei para o garoto.

― Minha caneta, perto da sua mochila. ― Ele respondeu um pouco tímido.

―Ah, claro! Desculpa não tinha ouvido. ― Estiquei meu braço direito para pegar a caneta no chão. ― Está aqui. ― Havia saído da cadeira para entregar a caneta.

Só quando entreguei a caneta o vi. O olhei rápido, não gosto que as pessoas percebam que estou olhando para elas. Sempre achei que me faz parecer intrometida. Era um garoto normal, nem acima do peso nem abaixo dele, olhos azuis, pele clara, cabelo curto e liso castanho escuro. Devia no mínimo ter um metro e setenta, deduzi. Estava usando calça jeans, como a maioria das pessoas na sala, e uma camiseta vermelha polo da Ralph Lauren.

― Não precisa se desculpar inglês sempre foi monótono. Eu sou Kurt. — ele disse ao mostrar um sorriso caloroso e encantador ao estender a mão.

― Anna. ― Disse me apresentando, voltando ao meu lugar Julie começou a dar risinhos na minha direção. Se essa fosse uma estória, chamaria a parte em que estava de reviravolta. É banal em filmes de comédia romântica quando alguém deixa cair algo, e por esse motivo duas pessoas se conhecem, se apaixonam, passam por problemas, e ao final vivem felizes para sempre. Essas cenas são tão clichês que um dos primeiros diretores a ganhar alguma notoriedade com esses filmes foi Frank Capra nos anos trinta, por “It Happened One Night” (Aconteceu naquela noite), é ainda melhor que os atuais. Não acredito que algo original possa sair dali, são somente cópias, modelos iguais com pequenas modificações criados a partir de uma fórmula especial.

Meia hora após a aula terminou, tinha que ir para Matemática, sendo que pelo que estava escrito ao lado dos horários, a sala parecia ser em outro prédio, como num anexo. Pensei em ir à secretária, ou perguntar para alguém, melhor do que ficar perdida, e perder a aula. Julie tinha que ir para o tempo de sociologia, combinei que a encontraria no intervalo.

Quando cheguei à secretaria, uma senhora loura que devia ter uns sessenta anos de idade, de estatura mediana e um pouco acima do peso estava dando informações a uma garota que devia ser do primeiro ano.

A secretaria era de tamanho médio, um pouco menor que a maioria das salas, possuía um ar condicionado, e as paredes eram pintadas com cor marfim. Na parede do lado esquerdo a mais ou menos um metro e sessenta do chão havia um quadro de cortiça de cor marfim onde havia fotos de eventos que ocorreram na escola, provavelmente do semestre passado.

― Como posso ajudar? ― Perguntou a secretária de modo atencioso.

― Estou atrasada para a aula de matemática, no horário diz ser na sala 402, eu não sei onde é. Fui ao quarto andar, mas acho que algumas salas estão em reforma.

― Tenho quase certeza que avisaram aos alunos novos, em todo caso a nova sala é perto da quadra de educação física. ― Ela havia saído da cadeira e estava abrindo a porta da secretária quando apontou para a quadra, não muito longe da secretaria, vi ao lado uma sala com porta de madeira e a parede externa pintada de cor amarela. ― É ali.

― Obrigada. ― Disse já saindo da secretaria.

― Espere um pouco. ― Aumentando o tom de voz ― Ei, Sr. Bailey. ― Ela estava se referindo a Kurt, o garoto da aula passada, enquanto falava havia tirado o óculos de grau que usava e estava o limpando com uma flanela marrom ― Você não está atrasado para a aula? ― Ele estava indo em direção à quadra, e ouvia uma música de heavy metal bem alta.

― Ei, senhora Lucy. Adoro quando me chama desse modo. — Respondeu de modo sarcástico, o que demonstrava alguma intimidade — O professor escreveu muita coisa no quadro, demorei a copiar, estou indo para a aula agora. E, eu perdi o horário, por isso não sabia em que sala era matemática, então tive que ir perguntar, e ninguém sabia onde era, até que encontrei M…

Pensei em perguntar onde ele estava, pois o professor de inglês não escreveu nada demais no quadro, de todo modo não quis parecer intrometida.

― Então, não se importará de acompanhar esta jovem à aula de Matemática. ― Ela o havia interrompido. Quando a jovem ela se referia a mim, mas jovem era a palavra menos adequada para me descrever, a palavra apropriada a ser usada deveria ser senhorita.

― Oi, de novo. ― Disse Kurt ao sair da secretaria. ― Então, está gostando da escola?

― Até agora corresponde as minhas expectativas. ― Eu disse acabrunhada.

― Até agora corresponde as suas expectativas? ― Perguntou rindo ― É a primeira vez que ouço isso. ― Estávamos caminhando em direção à sala ― Espero que não seja o professor Andrew, as provas dele são complicadas.

— Então, Bailey. Como o licor irlandês? — Perguntei em dúvida.

— Só o nome, qualquer semelhança é mera coincidência. — Ele disse enquanto andávamos pelo chão com pedregulhos.

― Encontrou o horário? — Eu perguntei quando ele negou com a cabeça — Então, está gostando do início do ano?

― Está igual ao ano passado, não ligo muito. Chegamos. ― Ele dizia de modo desinteressado enquanto abria a porta mim. ― E é o senhor Andrew, já vejo minhas notas baixas. — Ele disse em tom frustrado e desapontado. — Ele consegue ser engraçado, mesmo que esse não seja o objetivo dele, você verá. Principalmente, se não está acostumado.

O senhor Andrew era baixo, devia estar pelos sessenta anos, levemente estrábico, calvo principalmente nas laterais da cabeça, era possuidor de uma péssima postura. Estava com um suéter marrom. E arranhava as palavras no quadro com a caneta esferográfica, como ele conseguia isso eu ainda não sei, percebi que seria um longo tempo de aula até o intervalo. Ele já havia escrito o nome no quadro: Andrew Diver.

Engraçado, o nome dele parecia ter sido tirado de uma das estórias de Scott Fitzgerald, Os personagens principais do livro Tender is the night (Suave é a noite), são Dick Diver e Nicole Warren.  Eu não o culpo, qualquer um teria uma vida problemática tendo a esposa que ele tinha, Zelda era maluca, normalmente não julgo ninguém, mas é realmente difícil pensar em Zelda sem que as palavras mentalmente incapacitada acompanhem o nome, ela havia tentado se suicidar. Desse modo, eu também posso ser considerada louca, prefiro loucura à normalidade. É melhor ser louca do que normal pelo menos, na loucura algo se destaca. Adoro os livros dele mais que os respectivos filmes por causa dos detalhes, além disso, o modo como ele os escreve faz com que seja complicado parar de lê-los. Para quem viveu na década de vinte e trinta, mesmo que em alguns livros dele seja feita várias críticas a era do jazz, nos dias de hoje quando releio há mais que tudo um saudosismo impregnados ás páginas.

― A matemática é uma ciência exata que necessita de muita atenção ― Dizia enquanto sublinhava a palavra matemática no quadro ― A primeira matéria do ano: matrizes é bem simples comparada ao que vem a seguir. Prestem atenção para que não fique chorando quando o ano acabar por que não conseguiram passar na minha matéria, passar no vestibular e não na minha matéria seria… Lamentável. Vamos ao que interessa: Esta daqui é uma matriz quadrada de segunda ordem. ― Estava desenhando a matriz e dentro dessa escrevendo uns quatro números. ― Alguém trouxe o livro? Vão precisar dele, irei passar nas próximas aulas algumas baterias de exercícios valendo pontos no teste para ajudar algumas pessoas. É de praxe as pessoas ficarem abaixo da média na minha matéria. ― Ele estava abrindo o próprio livro enquanto escrevia números de páginas no quadro ― Essas são as páginas correspondentes ao primeiro módulo do livro, que seria o de matrizes, que serão as utilizadas no primeiro bimestre. Estamos revisando um módulo dado no ano passado para que tornem-se mais a aptos quando prestarem o vestibular.

― Desculpe, professor, eu não entendi o que o senhor disse, poderia repetir? ― Perguntou uma garota sentada na segunda coluna de cadeiras a contar pela fileira mais próxima a mesa do professor.

― A senhora está lendo o que está escrito no quadro? ― Perguntou Andrew enquanto apontava para o quadro com a caneta.

A maioria dos adolescentes começou a rir pelo fato de não estarem acostumados a serem chamados de senhores ou senhoras, eu não precisei conter o riso, para alguns isso seria impossível pois era muito engraçado o modo como ele se expressava. Na minha época, com dezessete anos ser chamada de senhora era o protocolo, há muito que caiu em desuso, a não ser que o objetivo fosse zombar alguém. Ele realmente estava chamando uma garota de dezesseis, ou dezessete anos de senhora? Não sabia que isso fazia mal a própria autoestima das pessoas, principalmente garotas? Aparentemente não.

― É mais eu realmente não entendi. ― Disse a aluna já um pouco confusa.

― Leia. Uma matriz é quadrada quando o número de colunas e linhas é igual. ― Disse o professor de modo convicto, como se aquela fosse a verdade universal.

Como assim leia? Por que ele não explicava, ao invés de mandar os alunos lerem. As pessoas ainda continham risos pelos métodos de ensino do professor, e mesmo que os alunos tentassem esconder os risos o professor não fazia nada a respeito, ele não demonstrava emoções ou atitude, o único contraste era a postura severa, e o modo de agir, metódico.

O livro de matemática tal como os outros, era em volume único, por isso tinha a matéria de todo ensino médio, não só do ano em que se estava cursando. Possuía uma capa vermelha com os nomes dos autores do livro, nome da editora, o número da edição, tinha umas quatrocentas páginas, era um livro comum. Aliais, era parecido com todos os outros livros. Não sei por que existiam volumes únicos, aquilo era um peso desnecessário na mochila da maioria das pessoas. E deveria prejudicar a coluna, não a minha é claro. Pessoalmente preferia os menores e mais compactos.

Nunca entendi Matemática, e até Física e Química não eram tão difíceis comparadas a ela, matemática era aquele tipo de matéria que não era possível entender. Eu tentava, lembro que da última vez que a estudara, era um completo fracasso, todas as notas acima da média, com exceção de matemática, que eu com sorte consegui passar após as provas finais, na exata média necessária, o que hoje poderia ser chamado de regular. Foi um tempo de aula, mas parecia ter sido a aula mais demorada até então, e mesmo assim estava feliz de um estranho modo por ter participado dela. Depois tive aula de Geografia I, no segundo andar. Depois, fui para o refeitório.

― Não tive oportunidade de perguntar antes, pois você saiu rápido da sala. Sr. Diver faz matemática ser pior do que parece não acha? ― Kurt me perguntou quando me encontrou a caminho do refeitório. ― Nos trata como se fossemos crianças. Mal começou as aulas, e ele já passa dever, realmente duvido que vá adiantar para alguma coisa.

― Minhas tentativas de entender matemática, química e física foram um fracasso, por isso comecei um processo de aceitação. ― Eu disse relaxadamente, estava naquele momento tendo uma conversa casual. Não participava de uma delas há décadas.

— Somos dois — disse Kurt, completou: — Gravar fórmulas! Na primeira prova do segundo ano, decorei todas, e tirei 3,5. Mas melhorei desde então! Consigo um 5 no mínimo. Do que adianta saber que F = MA (força é igual a massa vezes aceleração)?

— Pergunte a Newton! Ele deve saber! — Respondi com um sorriso contido.

O refeitório era amplo, como puder perceber só hoje, pois ontem estava nervosa e de modo extremo, alterada. A verdade é que se algo desse errado, seria no primeiro dia, pois não estava acostumada e exigia demais de meu autocontrole devido a tudo que acontecera no passado. Hoje sei que devia ter me importado mais com o que estaria por vir. Talvez, fosse melhor se tivesse ocorrido algo, simplesmente, tivesse matado alguém, e decidido ir embora.

O refeitório estava mais vazio que ontem, tal como o caminho até ele, o professor deve ter liberado cinco minutos antes, o sinal havia acabado de tocar. As cadeiras e mesas eram de metal, havia pelo menos umas trinta e poucas mesas e havia umas seis cadeiras em cada mesa. Entre todas as mesas devia ter um espaço mínimo, algo por volta de sessenta centímetros. O chão era de piso frio e corrido da cor branca e as colunas do refeitório eram brancas. A cantina era grande, vendia pelo que me lembro salgados, refrigerantes, doces de vários tipos, tudo que uma cantina comum venderia. Tudo que eu não comeria. Se assemelhava à ala de alimentação de um hospital psiquiátrico, e os alunos não pareciam tão diferentes dos pacientes, exceto pela roupa.

― Quer lanchar aqui? ― Apontava para a mesa mais próxima a cantina, onde pelo que pude perceber já havia pessoas sentadas, deveriam ser amigos deles.

― Meus amigos ainda não chegaram, acho que eles não se importariam. ― Olhei em volta e nem Dieter ou Eve estavam lá.

― Legal. Você quer comer o que? Hoje eu pago. ― Disse enquanto íamos para a cantina.

― Realmente não precisa, eu só vou beber água. — Eu disse enquanto ele ia em direção a fila.

― Nunca tinha visto você na escola, é aluna nova, não é? ― Perguntou interessado ao me olhar para mim como se estivesse me medindo. Era horrível.

― Sim. Eu estudava em Liverpool, e tive que me transferir. ― Esse tipo de momento em que tinha que mentir sempre me deixava nervosa.

― A escola era ruim?

― Não, foi por causa de problemas familiares. ― E a mentira estava aumentando, era a mentira da mentira, por que a mentira era o fato de ter perdido meus pais num acidente de carro. Eu dizia isso para alguns, e para outro falava versões alternativas.

― Ah. Então tem certeza de que não vai querer mais nada? — Ele perguntou

―Não.

― Tudo bem.

― Você vai querer o que? ― perguntou a atendente dois minutos depois a Kurt.

― Um Hot dog, uma soda e uma água. ― Disse para a atendente, que estava totalmente ocupada, pois só estava ela na lanchonete, e mesmo que o refeitório não estivesse cheio, a fila para comprar começava a ficar amontoada.

― E você? ― A atendente perguntou para um garoto que estava atrás. O garoto falou algo e a atendente foi apressada pegar os pedidos. Ela voltou um minuto depois, balbuciando para si mesma que alguém deveria vir ajudá-la, pois não ela não era duas.

― Serão seis libras. ― Kurt pagou o lanche, pegou hot dog e a soda, e me entregou a água. Estava se dirigindo a mesa, quando vi Dieter e Eve chegando ao refeitório.

— Oi, Julie. — Eu disse ao vê-la, quando estava indo junto com Kurt em direção à mesa que ele havia apontado há segundos. Ela estava junto de outra garota. As duas haviam acabado de comprar algo na cantina.

— Não quer ir sentar na mesa conosco? — Julie perguntou sendo educada.

— É só que… — Eu respondia quando Kurt me interrompeu.

— Por que vocês duas não vem com a gente? — Kurt perguntou — É só puxar mais algumas cadeiras.

— Claro. — Julie respondeu.

― Essa é a Anna. ― Ele estava me apresentando aos amigos dele, eram dois garotos e uma garota. — E você é?  — Ele perguntou em dúvida a amiga de Julie.

— Eu? — Ela perguntou a si mesma, como se estivesse pensando profundamente em outra coisa, e prontamente acrescentou: — Eu sou Carrie, e ela é Julie.

― Esse é Michael. ― Kurt estava nos apresentando a um garoto corpulento e alto, que devia ser do terceiro ano também. ― Essa é Rebecca. ― Era uma garota bem magra, com uma má postura, estava muito bronzeada, deveria ter uns dezessete anos. Usava roupas de marca, e um tênis All Star. No momento, estava mexendo no celular, provavelmente enviando mensagens ou vendo notificações em alguma Rede social. ― E esse é Eric. ― Era dos três garotos o mais baixo, ainda assim, era esguio, tinha olhos castanhos, era moreno e magro.

― Oi. ― Eles disseram para mim, Carrie e Julie enquanto nos sentávamos.

— Oi. — Carrie disse.

― Então, em que aula se conheceram? ― Perguntou Michael para mim, enquanto mordiscava um salgado.

―Na de inglês. ― Eu respondi.

― Na de matemática. ― Kurt disse quase ao mesmo tempo.

― Na de inglês, ou na de matemática? ― questionou Eric meio confuso enquanto amarrava o cadarço do tênis.

― Se esqueceu que você deixou a caneta cair na aula de inglês? ― Perguntei como se não me importasse.

― Não se importe com os lapsos de memória do Kurt aqui, ele faz isso quase todo o tempo. Só não sabemos se é a memória ou só falta de atenção mesmo. ― Disse Michael rindo.

― O que eu quis dizer é que só conversamos mesmo a caminho da aula de matemática. ― Disse impertinente, ao tentar se explicar.

― Falando sobre matemática, que professor está dando aula pra vocês? ― Perguntou Eric.

― O Andrew. ― Kurt disse cansado olhando para baixo, e abocanhando um pedaço do hot Dog.

― Cara, você é realmente azarado. Existem uns dez professores de matemática e você pela segunda vez consecutiva consegue a proeza ser aluno dele. Boa sorte com isso. ― Disse Michael enquanto ria.

― Qual seu professor? ― Eu perguntei sem interesse, no entanto feliz por participar da conversa.

― Srta. Pullman. Eu e Michael tivemos aula com ela na segunda, nos dois últimos tempos, ela explica bem melhor que o Andrew. ― Disse Rebecca enquanto ainda mexia no celular.

― Cara, você me deve dez libras. ― Eric disse a Kurt enquanto passava o celular a ele. E esticou a mão, como se esperasse receber o dinheiro naquele momento.

― Por quê? ― Kurt perguntou um pouco preocupado.

― Antes das aulas terminarem você apostou comigo que Osama Bin Laden não tinha morrido, e eu acabei de olha no You tube, e pelo menos por agora, ele ainda está morto. Então, cada o dinheiro? — Eric perguntou.

― Primeiro, eu não apostei que ele não tinha morrido, eu apostei que ele nunca existiu que era só uma projeção holográfica, segundo eu estou sem dinheiro agora. — Kurt respondeu a Eric após beber um grande gole da Soda, e depois apertou o play no vídeo do celular.

― Você está chapado? Projeção holográfica? Tanto faz, vai ter que me pagar amanhã. Aposta é aposta, e admita você perdeu. ― Eric disse de modo convicto.

― Eu realmente acho que não, isso não prova nada. ― Kurt dizia enquanto devolvia o celular a Eric. ― Mudando de Assunto por esse realmente é chato. Alguém sabe quando estreia a sétima temporada de supernatural (Sobrenatural)? Depois do final da sexta temporada, com tudo aquilo que só fazem para deixar os fãs na expectativa o verão inteiro, belo cliffhanger, com Castiel sendo o novo Deus. Eles realmente têm senso de humor. ― Disse Kurt de modo bem entusiasmado comparado ao que estava segundos atrás.

Pelo que eu sabia cliffhanger (A beira do abismo) era um termo usado desde o cinema mudo, esse nome era utilizado para finais de filmes, ou livros, que teriam continuação. São situações limites, para fazer a audiência ver ou ler próximo episódio.

― Eu acho que é no final setembro. ― Disse Eric.

― O que é “Supernatural” (Sobrenatural)? ― Eu perguntei. Sempre tive interesse em qualquer assunto, é horrível quando as pessoas estão falando sobre algo que não conheço, não é porque quero realmente participar da conversa, ou mesmo para fingir interesse. É só por que odeio não saber, e a ideia de que nunca conseguirei saber de tudo, me deixa estressada, e às vezes, depressiva. Só sou contra noticiários, pois eles são muito realistas, não gosto da realidade. E, além disso, tenho muitos livros.

― Você não sabe o que é? ― Perguntou indignado, como se todas as pessoas no mundo devessem saber o que era. ― É o seriado. É uma das melhores séries atuais. A primeira temporada fala sobre dois irmãos que caem na estrada à procura do pai depois que a namorada do Sam morre… Quer saber eu tenho todos os DVDs na minha casa, talvez a gente possa ver algum dia. ― Disse Kurt.

― Claro, por que não? ― Eu perguntei em retórica. Gosto de filmes e seriados, mas no geral gostava daqueles que eram antigos, que hoje são considerados clássicos, como “Twilight Zone” (Além da Imaginação) e “Alfred Hitchcock Presents”. Mas pelo tom de voz de Kurt parecia que estava implícito que ele não estava me convidado só pra ver o seriado.

― Na sexta temporada tiveram aqueles dois episódios consecutivos, o penúltimo sobre o Dean e último sobre o Sam foram incríveis. Desde o início de 2011 sabia que a série seria renovada, teriam que ser loucos para não renová-la. Acho que foi em abril que a anunciaram previamente que ela seria renovada. ― Disse Rebecca.

― Você realmente é uma fã. ― Carrie disse a ela animada enquanto amassava o papel que antes embrulhava o biscoito.

― Você não vai beber a água? ― Perguntou Kurt a mim enquanto acabava o hot dog.

―Vou. ― Abri a tampa da garrafa e bebi alguns goles. Não é que vampiros não possam comer ou beber, só que não nos satisfaz.

― Alias, avisaram sobre os seriados na mesma semana do casamento do século. ― Rebecca disse ainda mexendo no celular, Iphone, Ipad ou sei lá qual nova tecnologia aquilo podia ser chamado.

― Casamento do século? ― Eu perguntei em dúvida.

― Príncipe William e Kate. ― Rebecca respondeu antes mesmo de eu terminar a pergunta.

―Ah, Claro! ― Ás vezes, não me importava em ligar aquele negócio ao qual chamavam de televisão, sempre a ligava, mas para filmes, não para ouvir notícias nunca me importei muito com elas. Agora que voltei a estudar, deveria repensar minhas escolhas, senão não teria como participar de uma conversa.

― Eu gosto de Kate. ― Rebecca disse. ― Esse casamento aumentou a popularidade da família real, e, além disso, é como num conto de fadas.

― Isso é verdade, em pleno século XXI casamentos reais. ― Disse isso por que ainda quando era humana isso já ocorria mais de meio milênio, e hoje é ainda mantido. É memorável, e raro que haja tradições mais antigas que eu.

― Alguém que more em qualquer outra parte do mundo, deve achar tradições como essas improváveis. Sei que existe Mônaco, Gales e outros reinados, mesmo assim é diferente, aqui parece mais pomposo. ― Rebecca disse.

― Ela gostou tanto do casamento que faltou a prova de matemática que tínhamos no dia, só pra ver de perto o cortejo real, após o casamento. ― Disse Eric — Nós estudávamos de manhã até o semestre passado.

― Ei, um casamento real é único, já a prova de matemática tem segunda chamada. ― Rebecca disse mexendo no cabelo e olhando diretamente para Eric como se tivesse sido ofendida.

― Então, qual episódio da sexta temporada vocês acharam mais engraçado? ― Perguntou Kurt ao mudar de assunto. Casamento não parecia um tópico que ele gostasse. Alias, parecia estar um pouco irritado.

― Teve aquele episódio com sátira ao Twilight (Crepúsculo), mas o do velho Oeste ganha. ― Respondeu Michael. ― “48 horas antes, 150 anos”, isso foi muito engraçado.

― Puxa, os créditos de abertura foram o do Bonanza. Também teve aquela mulher no Saloon dando em cima do Dean. Além de toda mitologia envolvida, como a fênix e referências a Star Trek IV, logo no início quando ele acha o diário do Samuel Colt. Há uma citação de Die Hard (Duro de Matar) assim que mata a fênix. Mencionam “Jeannie é um gênio”, há referências a James Bond quando chama aquele anjo de Srta. Money Pennny que é nos filmes e nas histórias do 007, a secretária da personagem M, que designa as missões do Bond. Na segunda temporada, tem o portal do Diabo e nesse episódio é mencionado que o Samuel Colt estava o construindo. ― Rebecca disse se empolgando. ― E o modo como eles conseguem as cinzas da fênix é do mesmo modo que de Volta para o futuro.

― Desde que eles voltam para o velho Oeste o Dean fica zoando o Sam, primeiro por que ele pisa em estrume, depois ele não consegue montar direito a cavalo. Além disso, são mostradas as escolhas duvidosas que o Clint Eastwood adotou no cinema. ― Disse Michael ― E o Sam assim que chega ao Velho Oeste, chama o Dean de Sundance,  referindo-se a “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (Butch Cassidy).

― Com o Paul Newman e Robert Redford, de 1969? ― Eu perguntei parecendo feliz só porque sabia sobre o assunto.

― Claro, só tem essa versão. ― Respondeu Michael.

― O nome do episódio é Frontierland. Eles voltam em 1861 com o intuito de encontrar o Samuel Colt, já que com a Colt eles conseguiriam matar a fênix, e com as cinzas eles poderiam encontrar a “Mãe de Todos”. O episódio foi fora de série, posso estar enganado, mas o Jensen Ackles deve ter adorado interpretar o Dean naquele episódio. E o Dean dizendo ser Clint Eastwood foi muito engraçado. ― Disse Rebecca animada ― Sem contar que a fotografia em sépia fez parecer muito com filmes de Western.

― Você disse Colt, como a arma? ― Perguntei a Rebecca de modo a me juntar a conversa, ao mesmo tempo em que ele disse sim. ― Tem outro seriado que vi há algum tempo ― Aproximadamente cinquenta anos atrás ― que uma Colt calibre 45 é mencionada logo no episódio piloto original, é Twilight Zone (Zona Crepúsculo), ela não mata fênix, mas é mencionada. Não tenho certeza, mas nesse episódio o protagonista foi o James Gregory.

― Twilight (Crepúsculo) como no filme? ― Perguntou Rebecca um pouco perplexa por eu dizer tantas informações.

― Improvável. ― Eu dizia já um pouco confiante por partilhar algo com as crianças. ― Esse seriado possuía episódios sem ligação entre eles em que ocorriam coisas inexplicáveis. É ficção científica.

― Então é a mesma coisa. É improvável que vampiros brilhem no sol. ― Disse Michael rindo, e eu tinha que concordar com ele. Eu só me perguntava de onde uma escritora tiraria a ideia de vampiros brilharem, se fosse queimarem no sol, até que poderia achar várias referências. Mas brilharem? Nós não éramos fluorescentes.

― Você não fale mal de Crepúsculo, é o melhor filme de vampiros que existe. ― Disse Julie depois de um grande silêncio, parecendo aborrecida com Michael, mesmo que tivesse acabado de conhecê-lo. ― E, Anna, eu vi há algum tempo, mas tenho quase certeza que o primeiro episódio de Twilight Zone é sobre um internato, ou algo do tipo.

― Twilight Zone (Zona crepúsculo) de que estou falando foi narrada pelo Rod Sterling, é em preto e branco, e passou entre 1959 a 1964. O nome do episódio é: Where is everybody? (Onde estão todos?). Gosto de seriados antigos. — Eu respondi a ela.

― Ah, eu não vejo seriados antigos, eu estava falando sobre o remake que passou em 2002.

― Remake? ― Eu perguntei tendo uma expressão um pouco indignada. ― Eu não gosto de remakes, principalmente se a versão original foi bem sucedida, o que ocorreu neste caso. Ela teve um pouco mais de 150 episódios.

―Sobre esse filme de vampiros… — Rebecca disse enquanto tirava o casaco que estava usando — Não é uma crítica, mas eles poderiam estar em qualquer lugar, por que escolher o ensino médio? Não é o melhor lugar na terra.

― Nisso eu concordo. ― Julie respondeu.

― Estando na literatura, eles poderiam estar na Viena do século XVIII, na França Iluminista, na época da queda da Bastilha. Poderiam estar no império romano, ou ter como pano de fundo a segunda guerra mundial, na Mesopotâmia, em épocas de grandes feitos. Mas não, eles estão no Ensino Médio. Por quê? — Eu aparentemente fazia uma declaração — Aqui parece haver alguma pressão dos pais para que passem de ano, e no Vestibular, com todos os problemas que alguém poderia ter no mesmo lugar, sendo irresponsável tentando ser responsável. Não é um ambiente que combine com um vampiro. E eu sei… Eles só existem na literatura, e por isso mesmo, eles não deveriam ser colocados neste ambiente.

― Quando você fala deste modo, parece broxante. ― Kurt constatou enquanto ria, e mudando de assunto, acrescentou ― Qual a sua próxima aula?

― Acho que é educação física. A propósito a quadra, é aberta, não é?

― Elas são Abertas. Acho que você as viu, perto da sala de matemática.

― Não tenho certeza se vou poder fazer a aula.

― Por quê? ― Kurt perguntou.

― Tenho um problema no joelho, se correr posso deslocá-lo, então educação física não é uma boa ideia. ― Até agora foi à melhor desculpa que pude inventar. Sendo a quadra aberta haveria muitas pessoas, mesmo que não houvesse sol por estar de noite, ainda era agosto. Não arriscaria passar mal, ou ficar com fome mais cedo que o esperado.

― Ah, meu próximo tempo é de Geografia. — Kurt disse desanimado quando o sinal tocou.

O sinal era de cor azul e tinha uns dois no refeitório, era um modelo antigo, até mesmo um pouco parecido com o da minha antiga escola. O sinal havia acabado de tocar, o barulho era equivalente a um sino, me perguntei por que não o trocavam. Os sons, principalmente os mais barulhentos, causam uma grande dor de cabeça, por que tenho a audição apurada. Então, escuto o barulho como se ele estivesse umas dez vezes mais alto, isto é quando estou perto, neste caso, do sinal.

― Então tchau, estou indo para educação física. ― Disse a Kurt.

Peguei a mochila na cadeira de couro, Peguei a mochila de couro que estava em cima da cadeira metálica, e a água, que estava quase intacta, só fingi tê-la bebido. Joguei a garrafa fora na primeira lixeira que encontrei me certificando de que Kurt não veria. Encontrei Dieter e Eve na saída do refeitório, que agora estava tumultuado indo na mesma direção, devia ter o dobro de pessoas em comparação à quando cheguei há meia hora. E ainda sim estava bem, foi um alívio, pois isso significava que poderia continuar na escola, haveria talvez problemas na próxima aula por causa das pessoas, nada que não conseguisse ser reparado.

― Vi que você está se enturmando. ― Disse Dieter com um sorriso caloroso e gentil.

― Alguma hora teria de acontecer, não é? ― Eu disse, e com ares de preocupação, completei. ― Agora é educação física.

― Não terá problemas hoje. A professora não passou nada prático ou teórico, ela só conversou um pouco, perguntou nomes, apresentou os alunos novos, nada demais. ― Disse Eve querendo reconfortar.

― Como sabe que será a mesma professora? E, além disso, o que me preocupa é que deve estar muito abafado lá fora não vai me fazer bem, pois não estou acostumada como vocês. Da última vez, entrei em pânico, se não fosse Tom para me acalmar, não sei o que teria feito. Acho que vou ter que faltar a aula. ― Disse sentido meu rosto tremer, tinha medo que as veias ficassem expostas.

― Primeiro só tem dois professores de educação física, um deles pelo que concluí faltou hoje. Então mesmo que fosse o outro, a professora que deu aula para mim e Eve irá substituir o que faltou. Você precisa se acalmar. ― Disse Dieter ― Na pior das hipóteses você ficara com dor de cabeça. Você se alimentou, não é?

― Não fará diferença, lá fora está muito abafado, e há muitas pessoas. Deveria parar de me queixar. ― Respondi consternada.

― Anna se você precisar, talvez seja melhor faltar à aula, pode esperar no carro. Dieter dê a chave do carro a ela. ― Disse Eve

― Nós temos ir para aula de química. Aqui está a chave. ― Disse Dieter.

― Obrigada.

O vento e o resquício de sol que havia na parte de fora do colégio castigavam as folhas, elas não deviam ser regadas há um dia, estavam começando a ficar secas. O carro estava no estacionamento, mas minha memória geográfica era péssima, por isso demorei algum tempo para achá-lo. Iria faltar os tempos de educação física, depois teria que ir para o de química, que era o último tempo. Considerava indiferente faltar ou não a aula, além disso, as circunstâncias pediam.

Quando estava abrindo a porta do Porsche que contrastava no estacionamento por estar ao lado de um Ford antigo, percebi que alguém estava me observando. Apesar de ter uma horrível memória geográfica tinha uma ótima audição, senti os passos, e o atrito de sapatos masculinos no chão, tal como a pequena poeira que levantava, não ouvia aquilo há tanto tempo que pensei ter esquecido como era. Alguém distante estava me observando e chegando cada vez mais perto, até que percebi quem era. Ainda de costas para ele, enquanto fingia pegar algo no carro, murmurei com uma voz arrastada e de modo vago.

― O que você está fazendo aqui? ― Era melhor que eu estivesse enganada, qualquer coisa era melhor do que tudo aquilo, eu já havia esquecido, não queria aquele pesadelo novamente.

― Wow! Eu pensei que ia ter dar um susto e você que me deu! ― Disse Kurt exaltado. Tentou se explicar. ― Eu nunca gostei de Geografia, é perda de tempo, depois pego a matéria com alguém.

― É você? ― Perguntei surpresa e ainda ofegante. Colocava as mãos na cabeça, não estava conseguindo respirar direito.

― Quem você pensou que fosse?

― Esqueça, só pensei ser alguém…. ― Dizia enquanto olhava para o outro lado do estacionamento. Não poderia estar imaginando-o, mesmo que fosse do meu feitio confundir imaginação e realidade.

― Eu vi quando você estava vindo para o estacionamento. Educação física realmente te assusta tanto assim? ― Disse Kurt enquanto a voz se recuperava gradualmente do susto.

― Da próxima vez não me siga, por favor, ou muito menos tente me dar um susto. E a propósito, nunca gostei de educação física, principalmente quando a quadra é aberta. ― Disse vagamente. Com sol ou sem sol, não era uma boa ideia, me sentia fraca, estava começando a ter dores de cabeça. E ter que ficar dando explicações era cansativo. Vampiros podem ter dor de cabeça? Sim, é só se convencer de que está com uma.

― A aula de Educação Física é só prática, é simples. Se você estiver com problema no joelho, terá que esperar no banco. Não há nem problema de ficar bronzeada, não há sol nenhum. ― Disse como num comentário sem nenhuma importância.

― A aula de Geografia é só teórica, e, no entanto você está aqui. E se você não se importar vou entrar no carro, aqui está muito abafado. ― Disse enquanto começava a sentir minha garganta arder, estava ficando mais pálida, sentia minha pele que parecia estar acinzentada.

― Vamos. Eu te acompanho até a aula de educação física. Se algum inspetor te encontrar no carro no horário da aula, ligará para os seus pais. E só para você saber, essa escola consegue ser bem persuasiva.

― Ele ligará para os meus pais? A escola é persuasiva? ― Gostaria de vê-los tentarem. Dei um sorriso irônico. Enquanto trancava o carro e colocava a chave na mochila. ― Não podemos deixar isso acontecer, não é? Está bem eu vou. ― Porque eu fui junto com Kurt naquele dia a aula de educação física ainda não entendo. Já estava pálida, mas está era minha cor natural. Podia desmaiar a qualquer hora, seria pura dramaticidade. Quando chegamos, toda a quadra estava coberta pela luz fraca da lua, pude perceber que a professora estava acabando de conversar com os alunos, como numa apresentação de primeira aula, perguntando o que eles gostavam e também falando sobre ela. Pessoalmente achava esse tipo de conversa infundada. Em quarenta minutos, provavelmente terá esquecido o nome de quase todos os alunos.

Havia duas quadras, uma do lado da outra, a que estávamos era a mais distante da sala de matemática, aquela que tive ir à secretaria para perguntar onde era. As duas quadras eram poliesportivas. A única diferença entre elas era que a pintura da quadra que ficava mais perto da sala de matemática estava bem desbotada, talvez em manutenção. Eram oito e vinte da noite, em frente às quadras havia alguns postes as iluminando, a luz era opaca, por isso estava escuro nas proximidades. Do lado fora de ambas as quadras, na lateral, havia arquibancadas, pintadas da cor cinza, onde os alunos estavam sentados. Kurt e eu fomos para lá, devíamos estar uns vinte minutos atrasados. E ele estava faltando à aula de geografia. Estaria eu o induzindo ao mau caminho?

― Desculpe professora nos atrasamos. ― Kurt disse hesitando.

Pensei que talvez ela não nos deixasse assistir a aula, o que seria ótimo.

― Tudo bem, podem se sentar ali. ― Indicando a arquibancada. Ela estava com uma prancheta. Estava usando uma blusa e calça de malhar pretas. Deveria ter cinquenta e poucos anos.

― Quais são os seus nomes? ― Falava enquanto olhava a chamada

― Anna Christie.

― Kurt. ― Disse de modo natural. Ela não deve ter olhado na chamada, pois ele não estava na mesma turma que eu.

― Para quem chegou agora. ― Ela disse descansando os olhos rapidamente em mim e em Kurt, com olhar de censura. ― Meu nome é Olivia. Serei a professora de educação física. Os quatro semestres serão divididos cada um em atividades específicas, o primeiro será de basquete, o segundo de futebol, o terceiro handball e o último de vôlei. Começará a partir da próxima semana já que o nosso tempo está quase acabando. ― Disse enquanto olhava o horário no relógio de pulso. ― Já que falta pouco tempo passarei uma atividade rápida. Futebol ou handball? — Ela perguntou aos alunos.

Havia mais garotas que garotos na aula, talvez tenha sido por isso, handball ganhou. Eu estava procurando na bolsa minha maquiagem, havia um espelho pequeno com a base. Quando olhei no espelho minha pele estava mais esbranquiçada ainda, como seu estivesse anêmica. Coloquei a base, mas estava na aula de educação física, estava ficando com mais sede. Teria que pedir para a professora me liberar da aula. E de lá iria para ao carro. Fui até a professora que já estava ajudando a montar os times no meio da quadra.

― Eu não posso jogar tenho problema no joelho, ele está lesionado e, além disso, não estou passando bem passando bem. Será que podia ser liberada. ― Tentei compeli-la, mas não funcionou, eu realmente estava fraca não teria força para isso, foi só uma tentativa fracassada. Em situações como essa é que era melhor ter faltado, pois chegava atrasada a aula e ainda pedia pra ser liberada mais cedo. Isso era horrível, estava começando a pensar como uma adolescente responsável. Devem ser as más companhias.

― Está se sentindo bem? Parece pálida, precisa ir a enfermaria. Kurt pode acompanhá-la? ― Disse a professora de modo preocupado, enquanto percebia minhas olheiras. Estava com calafrios, nesses momentos era sensível ao calor e ao frio. Queimaria de frio, teria febre, em estado crítico alucinaria. “I see dead people” (Eu vejo gente morta), mas dificilmente chamaria isto de sexto sentido.

Dois minutos depois já havia pegado a bolsa e estava saindo da quadra com ele e indo em direção ao carro. Eu podia realmente me virar sozinha parecia, mas que as pessoas achavam que Kurt deveria ser meu guarda-costas ou algo do tipo.

― Que sorte que tive que ela não olhou a chamada, só perguntou os nomes. — Ele lembrou tentando uma conversa.

― É, muita sorte. ― Ele teria sorte se não morresse.

― Ei a enfermaria é por ali. ― Ele disse parecendo assustado em como minha pele estava branca, se não bebesse sangue, logo ela ficaria translúcida. Estava exagerando, translúcida, de fato ela não ficaria, mas isso não mudava minha vontade por quebrar qualquer coisa que estivesse na minha frente. Foi uma estúpida ideia desde o começo e eu realmente acreditei que poderia dar certo, cometo os mesmos erros repetidamente, no final não aprendo nada.

― A enfermaria não vai ajudar Perguntou Kurt de modo curioso em nada. ― Tinha que chegar ao carro e rasgar o fundo falso da mochila, o fato de Kurt estar por perto era um pequeno empecilho. ― Sei que você que ajudar, mas eu só estou passando mal por causa de uma medicação. Estou com dor de cabeça, deveria ficar sozinha, só isso. ― Disse com voz baixa e fraca ― Talvez eu vá para o tempo de química II daqui a vinte minutos. — Exasperei consternada — É tudo culpa da medicação.

― Já que é assim, te vejo no tempo de química II, tenho o um monstro, ou algo do tipo último tempo de química II também.

― Tem certeza? Quero dizer você faltou o de geografia, realmente o seu último tempo é de química?

― Eu faltei o de geografia, pois como disse antes é perda de tempo, o professor não explica direito. O meu último tempo é o de Química II. ― Disse Kurt irritado e preocupado demais com alguém que havia acabado de conhecer.

― Tudo bem. ― Havia chegado ao carro e estava procurando a chave na mochila. Quando me lembrei de perguntar sobre algo, Kurt estava indo em direção ao prédio do colégio. ― Ei! ― Ele se virou no mesmo momento. ― Tem algum modo de não fazer aulas de educação física? Como fazer algum trabalho ao invés de ir às aulas?

― Tem sim, mas para isso precisará de uma avaliação médica, para o “problema no joelho”. Teria de ir a algum médico que ateste que você não pode jogar por que pode deslocar o joelho, ou que a atividade física de certa forma prejudica sua saúde. Então, a professora irá passar algum trabalho escrito.

― Ei, Kurt, obrigada.

― Tchau.

Abri a porta do carro e entrei. O cadarço de um dos meus tênis estava solto então joguei a mochila no banco do motorista e desci para amarrá-lo. Depois fechei a porta do carro. Tirei os livros e caderno da mochila e rasguei o fundo falso. Li na etiqueta da bolsa de sangue, que era B negativo, não era um dos meus favoritos gostava bastante do AB positivo, mas esse era que o que tinha. Lembrei que se ainda fosse humana, e se isso fosse uma transfusão intravenosa, teria morrido há muito morrido por aglutinação.

Comecei a beber, cinco minutos depois estava quase no final, pelo que pude perceber não tinha nenhuma mancha na blusa, se não nem poderia ir para a aula de química. Senti alguém tocando a porta do carro. Como não percebi que alguém estava vindo? Estava com tanta sede e absorta no fato que tinha que beber antes que alguém se machucasse que me esqueci de vigiar se alguém estava chegando. E claro tinha que ser Kurt! Joguei rapidamente a bolsa de sangue para baixo do banco, e coloquei minha mochila em cima.

― Se eu fosse para a aula de geografia, iriam mandar eu… O que é isso? ― Perguntou Kurt de modo curioso.

Quando ele abriu a porta eu estava no banco do motorista, a bolsa de sangue estava coberta pela mochila. Tinha acabado de limpar uma linha de sangue que ia do meu lábio ao pescoço. Reparei que as janelas do carro de Dieter não película contra luz solar, algo sobre o qual deveria conversar ele. Provavelmente meus lábios estariam encharcados de sangue, ele estava tão perto que duvidava que acreditasse numa desculpa tão esfarrapada como dizer que fosse suco de frutas vermelhas.

― Isso é… ― Perguntou ainda sem entender, mas parecendo amedrontado. — Isso é o quê?

― Então, esqueci de mencionar algo sobre mim, eu sou uma vampira. O que pensa a respeito disso? — Indaguei. Encontrei a saída em contar a verdade cômica e irracional. Kurt me tomaria por louca, e talvez parasse de me perseguir. Como puder perceber nos meses seguintes, ele não se importava com esse tipo de doença, nem um pouco.

― Ok. Agora você está com febre, está realmente mais pálida. ― Kurt respondeu preocupado.

Sai do carro, minha blusa ainda estava suja, acreditava que com o que havia acabado de beber estaria forte o suficiente para fazê-lo esquecer o que havia acontecido. Compelir alguém é uma espécie de hipnose. É uma forma de persuadir uma pessoa a fazer algo. Todos os vampiros possuem isso, pelo menos os que conheço. É algo que é passado com a transformação, todos os vampiros ficam mais fortes a partir dos anos, não há exceções. Contudo só funciona se estiver forte o suficiente no momento. Fraca como estava há momentos atrás não seria possível, mas isso era culpa minha.

― Estou falando sério, sou uma vampira. ― Disse fingindo conter risos. E apontando para meus lábios, disse ― O que pensa que isso é? Certamente não é suco de Cranberry.

― É melhor ir a enfermaria está pior do que eu pensava. ― Disse ele esticando o braço e fazendo menção para que eu fosse junto.

― É sério. ― Eu disse com um riso contido, pois minha boca estava molhada de sangue.

― Anna, se você é um vampira, eu sou o Drácula. ― Kurt disse enquanto ria. — Agora, vamos…

― Você não se parece com Bela Lugosi, mas definitivamente isto não é algo ruim. ― Disse tapando meus lábios com a mão.

― Deixe-me, pelo menos ver se você está com febre. ― Ele tocou na minha testa e tirou a mão na mesma hora, pois estava tão gelada como se eu tivesse posto o rosto num balde de água fria, pelo visto o sangue anda não tinha feito efeito, do contrário minha testa estaria quente. Nesse momento não restava muito sangue nos lábios e faltavam dez minutos para aula de química. Tinha que fazer isso logo antes que alguém visse.

― Como eu disse antes não preciso ir à enfermaria. ― Declarei. Provavelmente Kurt estaria pensando em como minha testa estava tão gelada, e o que era aquilo nos meus lábios. De qualquer modo, ele parecia acreditar que fosse suco.

Eu poderia matá-lo, ninguém iria ouvir, seria mais uma pessoa desaparecida. Três minutos antes e de fato teria o matado. Naquele momento como em muitos os outros, principalmente para os vampiros mais novos, quando se começa a beber sangue é excruciante parar, aprendi isso com o tempo. Contudo não é do meu feitio matar sem necessidade, além disso, não sou uma vampira nova. Estou no meu segundo dia de aula e se livrar de um corpo não é muito fácil. Se estivesse no século XVIII era só enterrar em algum lugar ou queimá-lo, poderia jogá-lo em um rio, quando o achasse algum tipo de pessoa impressionada diria que foi um monstro, ou o diabo. Era lamentável que as pessoas não o culpassem mais pela maioria de meus delitos, era mais simples viver naqueles dias. Estava no século XXI era um pouco mais complicado, tudo tinha que ter uma explicação científica, ataque de animal sem nenhum sangue no corpo era muito vago, mas era suficiente em roteiros de filmes. Tinha que considerar que Kurt se importava comigo, não faria esse tipo de coisa com alguém se importava comigo.

― Eu posso explicar. ― Disse numa forma para que ele se aproximasse. ― Por favor. ― Ele havia se aproximado um pouco mais, o rosto revelava confusão.

Olhei diretamente nos olhos dele, era melhor que isso funcionasse ou não restaria alternativa senão matá-lo. Eu disse:

― Você vai esquecer o que aconteceu. Nunca veio aqui. Irá voltar para a aula de educação física, esperar até ela acabar. Dirá para a professora que me deixou na enfermaria. ― Estava funcionando, fiquei aliviada. Matar alguém no segundo dia de aula… Preferia deixar para daqui a alguns meses. E, além disso, teria que esconder um corpo. Ainda bem que não aconteceu, realmente queria assistir a aula de química.

― Eu vou esquecer o que aconteceu, nunca vim aqui. Você foi à enfermaria ― Disse com os olhos injetados.

― Foi isso que aconteceu, não foi? ― Eu disse rindo. Ser vampiro tem seus lados ruins, mas compelir as pessoas, fazendo-as esquecer, é algo imprescindível, adorava. Imagine quantas discussões poderiam ser evitadas!

Entrei no carro peguei minha mochila joguei a bolsa de sangue no fundo falso rasgado. Enquanto isso Kurt estava indo em direção a quadra. Esperei até o tempo de química e fui para a aula.

A aula de química II foi como as outras. Teve uma pequena apresentação, a professora Ingrid, ou como ela pediu para chamá-la Srta. Parker, falou sobre a matéria inicial e escreveu o nome de alguns tópicos no quadro, nada realmente relevante como o que tinha acabado de ocorrer. Olhei para trás, Julie estava escrevendo a matéria no caderno ou desenhando algo, de onde estava não poderia saber. Do lado oposto da sala estava Kurt conversando com Michael em voz baixa, como se nada tivesse ocorrido. Parecia ser melhor do que o esperado.

Logo após a aula encontrei com Dieter e Eve no estacionamento, entreguei a Dieter a chave, solicitei para que a gente saísse rápido da escola. Pelo meu tom de voz Eve notou que algo havia mudado, mas não perguntou nada. Meia hora depois quando estávamos perto da minha casa, pedi para que ele estacionasse o carro em frente à casa. Fazia pausas lentas ao falar, exasperava mais que o normal, ele percebeu.

― O que aconteceu? ― Perguntou Dieter preocupado alguns minutos depois ao estacionar o carro

― Eve, depois você precisa me ajudar a colocar músicas novas no ipod. Vocês não querem entrar? Talvez estejam com fome? ― Tentando de alguma forma inútil abafar o assunto.

― Acho que é melhor entramos. ― Disse Eve com receio.

― Dieter, quase esqueci de mencionar, deveria colocar películas nos vidros do seu carro. Assim seria mais difícil ver se tem alguém dentro, sabe, ajuda a prevenir incidentes. ― Não queria parecer intrometida, até porque o carro não era meu, assim Dieter farias as modificações que quisesse. E sim, a culpa era minha por Kurt ter visto bebendo sangue, mas não é desse jeito que eu pensei logo após ele me encontrar naquele tipo de situação. É mais fácil culpar qualquer outra pessoa que não seja você mesma.

Quatro minutos depois eu tentava abrir a porta de nogueira, a chave havia emperrado na fechadura. Na terceira tentativa, obtive êxito. A casa estava arrumada, tal como a havia deixado quando saí. A única a coisa fora do lugar estava na cozinha, o copo com resto de sangue grudado no fundo dele, que não havia dado tempo para lavar.

― Sentem-se. Querem alguma coisa? ― Perguntei enquanto eles colocavam as mochilas no sofá.

― Eu aceito um copo, estou com sede. ― Disse Eve

― Eu também. ― Disse Dieter

― Tudo bem, eu já volto.

Fui ao porão, peguei a chave meio enferrujada no molho de chaves, e abri. O sótão, como a maioria deles não tinha muita ventilação, peguei uma bolsa de sangue na geladeira, e saí. Fui à cozinha pegar três copos, distribuindo os igualmente, faltando um quarto de palmo até a borda. Quando cheguei à sala, entreguei os copos e sentei na poltrona que ficava de frente para o sofá.

― Então, eu fui à aula de educação física, não estava passando bem então a professora me liberou da aula, alguém… ― Estava escolhendo com cuidado as palavras, Dieter se estressava com esse tipo de assunto facilmente ― me viu com sangue nos lábios. Mas a verdade é que ele nem sabia o que tinha acontecido, e eu já o fiz esquecer.

― Só isso? ― Perguntou Eve desconfiada. — Pode dizer o que aconteceu, nós não iremos julgar. Se precisar se livrar de um corpo, é melhor que nos conte. Podemos ajudar.

— Não. Não foi que aconteceu, pelos menos, não dessa vez. — Eu respondi ao estalar os dedos das mãos.

― Então você não matou ninguém? Pela expressão no seu rosto quando estávamos no estacionamento parecia ter sido pior. ― Falou Dieter parecendo aliviado, após beber um pouco do conteúdo do copo.

― Eu não matei ninguém. ― Acreditava que Dieter iria se estressar mais e que iria fazer um monte de perguntas. ― Eu levei sangue, pois estava com medo que ocorresse algum acidente.

― Quem foi? ― Eve perguntou

― Kurt, um garoto que conheci na aula de inglês, mas ele não se lembra de nada. ― Respondi duvidando do que falava, pois mesmo estando estava forte o suficiente para compeli-lo a esquecer de tudo, sempre restava dúvida. Ele poderia fingir, mesmo não tendo ideia do que se tratava.

― Eu vou observá-lo para ver se ele realmente esqueceu. ― Falou Dieter calmamente.

― Não precisa, é sério, ele esqueceu. Não há necessidade de ficar paranoico. ― Disse inquieta, não queria que Dieter ficasse observando Kurt. Bastava o próprio Kurt com tendências de perseguição

— Está bem. — Ele respondeu.

Dieter e Eve colocaram os copos, já vazios, na mesa de centro, os dois se despediram, e os acompanhei até a porta. Quando abri a porta Dieter disse:

― Lembre-se que você é sempre bem-vinda à nossa casa. Pode ir com seu carro dessa vez.

A casa de Dieter e Eve não era muito longe, era um duplex numa agradável rua que ficava em Notting Hill. De carro era apenas a vinte minutos do museu britânico, havia esquecido o nome da rua. Havia ido lá quatro vezes, eles moravam lá há três anos. Nas primeiras duas vezes, ele foi me buscar na minha casa. Quando não era eu que dirigia, não prestava atenção, era algo natural. Talvez estivesse no sangue.

― Como é irei à sua casa, o único jeito é de carro, eu não gosto muito de dirigir, sem mencionar o fato de que um mecânico deveria vir aqui, e provavelmente terei que trocar muitas peças do carro. Não uso ele há algum tempo.

― Se ele for a metade do que era nos anos cinquenta estará ótimo. Fazemos o seguinte: Eu tenho um amigo mecânico, ele pode vir dar uma olhada. ― Disse Dieter querendo ajudar, até por eu sabia que ele adorava meu velho carro.

― Mesmo assim esse é o tipo de carro que se deixa na garagem. Não é para exibi-lo. Claro que ele merece um conserto. Sobre o mecânico ainda tenho que pensar qual dia, por causa da escola estarei sem tempo.

― Está muito enganada. Aquele carro é um clássico, não se deixa na garagem. Se você tem, precisa exibi-lo. ― Disse Dieter como se eu tivesse o ofendido. ― Foi uma das suas melhores aquisições, principalmente por causa da história dele.

― Não é a história dele, ó modelo é igual, mas não é o mesmo carro.

― Depois eu penso nisso, juro. Deixo até você fazer um test drive. ― Disse para que ele parasse de insistir. Dieter sorriu enquanto colocava o copo de cristal já vazio, em cima da mesa.

― Tchau Anna. ― Disse Eve enquanto me dava um abraço apertado. ― Não se preocupe com o que houve hoje, afinal nós três sabemos que podia ter sido pior, logo vai esquecer isso.

― Tchau.

Foi difícil dormir naquela noite. O que tinha acontecido naquele dia era só um irreparável indício que tudo que havia ocorrido na última vez que me socializei com humanos, estava prestes a se repetir e eu como sempre, deixaria acontecer. Isso porque não tinha coragem o suficiente para largar a escola nos primeiros dias de aula. Demorei a dormir, devido àquelas detestáveis imagens que eu estava aos poucos relembrando. O que quis dizer foi, demorou tanto para esquecer aquilo, não era justo ter que agora, no presente, vivenciar tudo de novo como num pesadelo enquanto estava acordada. Um antigo conhecido disse certa vez que a vida era injusta, foi na noite em que o vi pela primeira vez. Que comentário tempestuoso para ser dito a um estranho! Contudo, não acredito que ele tivesse em mente causar uma boa impressão.

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