capítulo 3 – Little Bastard

“Little Bastard”

(Pequeno Bastardo)

No dia 21, era um domingo, aproximadamente ás sete da noite, Dieter apareceu com o tal amigo mecânico para ajudar a consertar meu carro, mencionando que o mecânico compartilhava da mesma opinião de Dieter que “deixar aquele carro na garagem era insano, fazia mal á saúde do automóvel”, nas palavras do mecânico. Dieter conseguiu renovar minha carteira de motorista para que eu pudesse dirigir. Como ele conseguiu isso, preferir não perguntar. Além disso, foi colocado um som, tinha sinal para rádio, o cd player e o conector para USB. Agora ele mais parecia uma réplica desse modelo, do que algo produzido na época.

Além disso, o mecânico fez outro comentário para o carro estacionado ao lado do meu Porsche, era uma Ferrari de 1961 modelos 250 GT Califórnia, vermelha. Disse que era outro clássico, bom nisso eu concordava com ele, aliás, qualquer um concordaria com ele. Eu a havia comprado em 1986, após vê-la em Ferris Bueller Day off ( Curtindo a vida adoidado). O filme me fez refletir sobre o tempo e em como ele passa rápido, e mesmo que não mudasse minha a aparência, podia sentir o tempo passar, e modo de agir das pessoas mudando. E de acordo com Ferris “Life moves pretty fast. If you don’t stop and look around once in a while, you could miss it.” (A vida passa muito rápido. Se você não parar e olhar ao redor de vez em quando, pode perdê-la)

Foi dirigido por John Hughes. O filme se passa em Chicago, mostra um adolescente se preparando para faltar aula junto com a namorada e o melhor amigo, retrata de um modo bem fiel o que os adolescentes aturam na escola, como aulas demoradas com professores que não sabem explicar direito. Também ensinam como mentir para os pais, enganar o diretor do colégio que está determinado em fazê-lo repetir o ano, adulterar as faltas do colégio, e fazerem todos pensarem que ele estivesse à beira da morte, precisando de um transplante e se morresse jurou que doaria as córneas para Stevie Wonder, quando na realidade estava tendo o melhor dia que uma pessoa poderia ter na vida. No fim, só não conseguiu enganar a irmã.

Ele convence o amigo a usar a Ferrari do pai, pois de acordo com ele ninguém acreditaria que o pai da namorada dirigia uma lata velha como a que o amigo tinha, no entanto, ressalta que nem a lata velha ele tinha, porque os pais eram injustos e decidiram dar a ele um computador. Eles a param num estacionamento fechado, e os atendentes, a pegam emprestada para uma volta, dirigindo como se estivessem participando de um racha, no entanto, a devolvem antes que os três voltem para buscá-la.

Ferris consegue fingir que avó da namorada morreu, para que assim ela fosse liberada da escola. Vão num dos prédios mais altos de Chicago, e se inclinam contra o vidro para ver como era a cidade de cima, a namorada a descreve com tranquila, e o amigo já paranoico diz que viu o pai, depois vão à bolsa de valores. Almoçam um restaurante chique alegando ser o “Rei das salsichas de Chicago”, e quase são encontrados pelo pai. Vão ao um jogo de Futebol americano. Depois ao museu e veem uma obra que deixa Cameron fascinado. Após, Ferris entra no meio de um desfile de rua Alemã e começa a cantar “Twist and Shout”(Gire e Grite) , do Beatles, em homenagem ao amigo, Cameron, que disse que eles não haviam se divertido e é aplaudido por todos. Tanto o diretor quanto a irmã tentam acabar com a mentira dele, o diretor vai à casa de Ferris e é mordido por um cachorro, leva vários socos na cara da irmã de Ferris, que pensava que ele fosse um ladrão.

Na casa de Cameron, o carro é colocado em marcha ré, na tentativa de mudar o ponteiro dos Km percorridos, nisso Cameron fica exaltado por se dar conta que o pai se importa mais com o carro do que com ele, e começa a quebrar a parte lateral do carro, até que ele se apoia no suporte, o suporte cai, o carro sai andando em marcha ré, bate contra a parede de vidro, e é destruído. Ferris volta o mais rápido para casa, a tempo de enganar a mãe que volta a casa para verificar se ele realmente estava doente. Enfim, é um filme que deve ser visto.

Eles não eram meus únicos carros, mas estavam entre meus favoritos, e só havia ele além do Porsche naquela garagem, os outros estavam trancados do outro lado, já era suficiente um Porsche e uma Ferrari a mostra. Tenho também um Porsche 356 Speedster preto com capota conversível, 1954. Possuo uma queda pelos conversíveis. Quem não? Ainda assim uma vez considerei a ostentação um pecado.

 

O que se sucedeu foi o mesmo. A mesma rotina de acordar, Dieter ainda me levava para a escola, passava o intervalo algumas vezes com Kurt outras com Dieter e Eve, a maioria com Kurt. Depois voltava para casa cansada e com uma pilha de dever para fazer, o pior era que algumas vezes o dever era para o dia seguinte. Consegui recuperar uma antiga habilidade não prestar atenção nas aulas, alguns professores possuíam o talento de fazer matérias interessantes parecerem uma total perda de tempo, principalmente os de matemática e geografia. Como Kurt tinha dito o professor de geografia não sabia explicar. Ele tinha a habilidade de fazer metade da turma dormir sobre os livros, quanto aos que conseguiam ficar acordados, estavam num estado entre o transe e o vegetativo. Eu era um deles. Fora isso havia combinado com Julie na segunda pelo telefone que depois da escola na quarta à noite, dia 24, iríamos a casa dela estudar matemática, estaria um pouco tarde para estudar, mas ela disse que a mãe não se importaria, e eu não poderia ir a tarde antes da aula, respondi que teria que ir ao médico. Seríamos duas negações tentando se ajudar, mas como Julie disse valia a tentativa.

― Esse domingo terá a social, você vem? ― Perguntou Kurt esperançoso na segunda-feira.

― Talvez, depende muito de onde será.

― Vai ser numa antiga casa, que virou boate, não sei endereço exato, mas é no Soho.

― Então vou precisar do carro, vou ter que falar com Dieter antes.

― Esqueci que você não dirige, eu posso te levar se você quiser.

― Não é que eu não dirija, tenho carteira, só prefiro não dirigir.

― Prefere não dirigir? Você me surpreende.

― Se você fica surpreso com isso, imagine outras coisas. ― Disse normalmente sentindo meu rosto mudar de expressão por causa do duplo sentido.

― E o que isso significa? — Kurt perguntou com um sorriso.

― Nada, é só uma afirmação. ― Estava pensando sobre meu incidente causado pela falta de cuidado que tinha ocorrido há menos de duas semanas. — Talvez eu vá. Tenho que ir para a aula de Química III. — Eu respondi quando o sinal do intervalo tocou.

Eu e Kurt nós estávamos… Eu não sei onde nós estávamos, acho que na atual época a palavra mais adequada com o que estávamos fazendo seria namorando, ou como Julie havia dito, ficando. O que quer que fosse, ainda não havíamos estabelecido. Prefiro não rotular relações. Eu queria deixar de me preocupar, viver mais, só isso. E toda essa exclusividade não fazia parte dos planos. Queria viver no estilo James Dean “Live fast, die Young” (Viva rápido, morra jovem), pelo menos em tese. A diferença é que eu podia viver rápido e morrer jovem várias vezes. Há algumas lápides ao redor do mundo com meu nome, este é um bom método para que os antigos contatos acreditem que realmente não está mais entre os vivos, o de encenar a sua própria morte. Já fui a alguns dos meus funerais. Gosto desta data festiva, pois o preto me cai bem.

— Você precisa ir agora? — Kurt perguntou segurando minha mão quando levantei.

— Não preciso fazer nada, mas devo ir. — Eu respondi ao soltar a mão.

— Acho que eu tenho Química III também. — Ele respondeu ao se levantar.

— Não, você não tem. Por favor, não comece a fazer isso, é realmente chato. Tenho que ir. — Eu repliquei.

— Fazer o quê? Só preciso proteger o que é… — Ele disse quando o interrompi.

— Esquece. Devo ir para a aula. — Disse ao me despedir, ignorando-o. — Tchau.

 

― Não se esquece da social e sobre o carro eu posso te levar. Não precisará dirigir ― Kurt me lembrou no horário da saída ao me dar um beijo demorado e possessivo, então, virou-se e foi embora.

― Ah, Anna. Eu me esqueci de entregar isso na hora da entrada. ― Dieter disse no estacionamento enquanto eu esperava por Julie.

― O que é? ― Era um envelope de cor bege, fino e de conteúdo leve.

― Abre. ― Disse ansiosamente.

― Você não é um doce! Obrigada. Semana passada, tive que dizer que estava com cólica e você sabe que sou uma péssima atriz. A professora deixou passar, mas duvido que tenha acreditado, até por que acho que sabe que não estava na enfermaria no primeiro dia de aula. Se tivesse que dizer isso na próxima semana, provavelmente não iria. ― Era o atestado médico, impresso num papel bege, com letra cursiva, e com uma assinatura em caneta preta, alegando que por problemas cardíacos não poderia fazer as aulas de educação física.

― Como você conseguiu? ― Quando observei a marca d’água era de uma rede de hospitais renomada.

― Do mesmo modo que Kurt esqueceu o que viu. Alias, o que foi tudo aquilo entre você ele? ― Disse Dieter seriamente. ― Parecia que ia comê-la viva.

― Agradeceria se não dissesse essa palavra, há algo de anti-higiênico em ser comparada à comida. E gosto de estar limpa. — Respondi ofendida — Sobre Kurt, ele acha que você e eu temos algo! Dá para acreditar? E mesmo que tivéssemos, nunca entendi todo esse puritanismo.

― Bom, eu levo você pra casa todo dia, e ninguém sabe sobre eu e Eve. ― Estava se referindo sobre a situação de casado, o que hoje em dia não parecia significar um real motivo para não trair, na verdade, nunca significou nada. É incitado por muitos, supervalorizados por alguns, mas não passa de um contrato. ― Deixe-o usar um pouco de imaginação.

― Vamos. ― Eve disse a Dieter ao chegar.

 

Era quarta feira. Julie havia ido de carro nesse dia, pois depois iríamos a casa dela para estudar. Havia duas semanas que as aulas tinham começado, mas o professor Andrew havia passado uma lista de exercícios de matrizes e determinantes. Então, iria jantar na casa de Julie e depois estudaríamos. Reformulando, Julie iria jantar, enquanto eu teria que dizer que não estava com fome, se não funcionasse diria que estava fazendo uma dieta, omitiria a parte em que a dieta era à base de sangue.

― Oi, Sra. Davis. ― Eu disse quando ela abriu a porta.

― Por favor, não me chame de senhora, é só Amanda. ― Disse enquanto abria a porta da casa. ― Entrem, por favor.

Algo que é necessário saber sobre vampiros: Numa casa em que ao menos um humano habite, é necessário ter-se um convite, sem ele a porta ou qualquer outro lugar que de acesso ao interior da propriedade é bloqueada. A partir do momento em que o convite é dado, a proteção sobre aquela casa para aquele vampiro é quebrada, então ele pode entrar a hora que quiser com convite ou sem. Por isso, tenham cuidado com que deixam entrar em suas casas.

Há dois anos vi o filme Låt den rätte komma in (Deixe ela entrar), a versão sueca de 2008, dirigido por Tomas Alfredson. Isso sim é filme sobre vampiros! Não nos queimamos daquele jeito no sol e de nenhum modo podemos entrar sem ser convidado, talvez, fosse melhor se assim fosse. Seria muito mais fácil. De qualquer modo, ser mostrados desse jeito, só faz com que a narrativa seja verossímil, se comparado ás antigas histórias de vampiros.

Sempre hesitei antes de entrar nessas casas por duas razões. A primeira é que tinha receio que essa espécie de feitiço não fosse quebrado, e por isso não conseguisse entrar. A segunda razão é que a partir do convite ser dado, sinto que posso ir aquela casa a qualquer hora, pois a barreira não existe mais. Uma vez, me arrependi de ter aceitado um convite.

― Claro. ― Eu respondi a Amanda ao hesitar enquanto olhava para o chão, para o final do tapete grosso de cor marfim escrito “Welcome” (Bem-Vindo) em marrom.

― Sinta-se em casa. ― Disse Amanda.

― Anna, coloque sua mochila ali. ― Disse Julie apontando para uma poltrona de couro um pouco gasta que estava ao lado de um sofá que circundava a mesinha de centro de carvalho onde havia quatro bolas de acrílico transparentes de cor azul-real.

A casa ficava numa rua em que todas as casas se alinhavam de modo igual, estavam dispostas de modo paralelo, era uma rua com muitas árvores aparadas de forma circular e baixa. A casa ao todo parecia ser bem hospitaleira, tinha dois andares, uma cozinha grande, três lavabos, três quartos, uma sala de estar e sala de jantar. A sala possuía uma decoração moderna, na sala havia um sofá, duas poltronas. Na parede que ficava atrás de sofá, tinha uma pintura em estilo Art Decó do Chryler Building. Ele é um dos prédios mais altos do mundo, maior que a Torre Eiffel.

― Antes de vocês chegarem, preparei a comida pronta, desculpe não poder ficar. Julie, eu preciso ir à casa da sua avó entregar uns papéis do médico, estarei aqui em duas horas, no máximo, três horas. ― Disse Amanda de modo prestativo. Ela estava quase saindo quando disse. ― Quase me esqueci. Eu ainda não tive tempo de falar com seus pais, eles vão te buscar aqui? ― Perguntou enquanto estava colocando a chave na fechadura, abrindo-a.

Ah, droga. Estava tudo ótimo, por que alguém teve que perguntar sobre meus pais? Poderia dizer que estavam em outro estado, o que levaria a várias outras perguntas intermináveis que talvez não soubesse responder. Que tipos de pais largam um adolescente de 17 anos no início do ano letivo, sem ninguém para tomar conta? Pais irresponsáveis! Eu não saberia responder esse tipo de coisa. Imagine se fossem averiguar! Não. Era melhor continuar com a antiga história. Essa seria a parte mais complicada de dizer, todos como sempre iriam ficar com pena de mim, por algo que nem mais me importava. Aconteceu há tanto tempo, eu não saberia demonstrar isso, havia perdido meus pais, mas foi há mais de dois séculos. Desse modo, é tempo mais que suficiente para esquecer até mesmo o que senti naquela época. Detestava a expressão nos rostos das pessoas, era normalmente uma mistura de pena e compaixão. Tinha que me lembrar apesar de tudo que tinha dezessete anos e iria fazer dezoito, e não duzentos e trinta e seis anos. Isso não era memorável, era triste.

― Meus pais faleceram há um ano, num acidente de carro. ― Disse faleceram ao invés de morreram, pois parecia mais respeitoso. Falei de modo tímido, introvertido, e melancólico. Não foi muito difícil, pois eu costumava ser assim.

― Julie, você não me disse isso. ― Dirigiu-se a filha repreendendo-a. e ficou lívida, como se tivesse provado algo amargo que não pudesse cuspir, quase constipado.

― Ela não sabia, eu não disse. ― Disse de modo natural ― Não gosto de lembrar.

― Mas é claro, coitadinha. Perder os pais tão cedo, deve ter sido horrível. ― Ela parou por aí. Percebeu pela minha expressão e pelo que eu havia dito que não gostava que tocassem no assunto.

Julie olhava para mim perplexa como se eu tivesse obrigatoriamente que ter mencionado esse particular detalhe da minha vida. Amanda olhava com pena, e agora estava sem palavras, ela não sabia se saia ou se ficava, pois foi ela que tocou no assunto, deveria estar sentindo algum tipo de culpa.

― Não se preocupe o que ocorreu… Eu me acostumei. Por sinal, meu amigo, Dieter vai me pegar após acabarmos de estudar.

― Eu realmente não… Se não estivesse atrasada… ― Amanda disse enquanto pegava o celular. Inferi que seria para ver o horário ― Tchau então. A comida em cima do fogão, sirvam-se enquanto está quente.

Depois que ela saiu, Julie olhou para mim, ainda não sabendo o que dizer, mas percebeu que eu não era uma boa ideia tocar no assunto. Dez minutos depois ela estava jantando, eu disse que estava sem fome, o que havia acabado de acontecer era motivo suficiente, não perguntou duas vezes se eu queria jantar. Após, me ofereceu um chá com leite que tive que educadamente recusar. Fiquei esperando ela acabar de comer para fazermos o trabalho.

 

O quarto de Julie era bem espaçoso para só uma pessoa. Era uma suíte. Era rosa com teto branco, tinha uma escrivaninha onde estava o notebook da Sony vermelho que estava ligado ao modem e ao roteador, sei disso, pois perguntei a ela o que eram aqueles aparelhos. E, não. Não irei assimilar a tecnologia. A cama estava com um edredom branco com desenho de flores azuis escuras, havia um sofá banheira branco com almofadas rosa, na realidade, me lembrou do sofá da personagem Holly Golightly, interpretada pela Audrey Hepburn, no filme Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo).

Havia uma estante de cor branco leitoso com cinco divisórias, as duas primeiras tinham livros, como todos os livros do Harry Potter’s, Artemis Fowl, e de autores como Dan Brown, Virginia Woolf e Jane Austen. A grande maioria era do gênero YA (Young Adult). Nas duas de baixo havia DVDs de diversos filmes, como, Top Gun (Top Gun – Ases Indomáveis) e Donnie Darko, além disso, alguns seriados como The Big Bang Theory (Big Ban: A Teoria) e House, M.D (Dr. House). E na última espremidos uns contras os outros, os livros e cadernos da escola.

― Você gosta de filmes de aviões? — Eu perguntei. Tentei abafar o assunto sobre meus pais, pensei em perguntar qualquer coisa, enquanto ela colocava na escrivaninha o livro, caderno e o estojo. Enquanto isso eu vasculhei a bolsa para pegar meu caderno e a caneta. Até que a achei na parte da mochila destinada ao notebook.

― Alguns sim, por quê? ― Julie disse enquanto folheava o livro ― Você sabe qual é a pagina?

― Você tem o DVD do Top Gun (Top Gun – Ases Indomáveis).

― Ah! Esse eu peguei emprestado da minha mãe e ainda não devolvi.

― Mas você gosta de aviões?

―Não tem exatamente como prestar atenção nos aviões nesse filme. A não ser que “avião” seja algum tipo de metáfora subtendida para Maverick, neste caso, sim eu adoro aviões. Tom Cruise estava simplesmente perfeito neste filme. ― Julie riu, e adquiriu nas bochechas um tom, de um segundo para outro escarlate.

― Você já viu algum filme com Alain Delon? — Perguntei enquanto prendia o cabelo com elástico.

— Nunca ouvi falar.

— A juventude atual! Não é possível. Nunca viu “Christine”, de 1958, “Plein Soleil” (O Sol por Testemunha), de 1960, “La Piscine” (A piscina), de 1969? — Senti minha garganta sendo preenchida por um bolor que terminaria com a glote fechando a qualquer momento. A indiferença manifestada no rosto Julie àqueles nomes causava-me extrema alergia, alegoricamente, ainda assim, a irritação era real. Pigarrei discretamente, completei:  — Ao menos, “La Tulipe Noire”, 1964, ou “Borsalino”, 1970?

— Desculpe Anna, mas não.

— Deveria ver. — Respondi em tom indignado, mas tentei não demostrar, e fracassei. — Então, você sabe fazer downloads de músicas pelo Itunes? ― Perguntei enquanto abria o caderno Moleskine, com pauta, e de capa preta.

― Você não sabe? Tem que inicialmente abrir uma conta com seu nome. ― Disse Julie enquanto pegava o notebook vermelho com alguns adesivos colados na parte da frente.

― Eu não sei mexer muito com computador, costumo pensar que ele é depois do meu tempo.

― Besteira. ― Ela disse ― Você tem o Vista ou Seven?

― Não faço a mínima ideia. ― Eu respondi enquanto o notebook era ligado.

― Perguntei por que o Windows Vista é um pouco mais complicado de mexer, o meu é o Seven. E se tivesse XP, estaria muito desatualizado. ―Explicou Julie cinco minutos depois.

― Qual navegador você usa? Eu uso o Chrome, mas existe o Opera, Firefox, Safari. Você usa qual?

― Explorer, eu acho. ― Respondi sem o mínimo interesse enquanto enrolava uma ponta do cabelo entre os dedos.

― Eu não uso o Explorer por que demora muito a carregar a página. Se meu notebook fosse da Apple, usaria o Safari. ― Disse Julie ao pedir para que eu me aproximasse. ― Aqui está. Para comprar música é só entrar pelo Itunes, e clicar na Apple Store. Seu pai… Desculpe-me, você tem cartão de Crédito?

― Tenho.

― Vou entrar com minha conta para te mostrar, depois faço uma para você. ― Disse enquanto digitava a senha. ― Você também pode importar os cds.

―É, eu sei. — Respondi enquanto folheava o caderno — Eu não compro músicas pelo internet, eu tenho muitos cds.

― Olha, por exemplo, vou comprar duas músicas que estava querendo há algum tempo é do Linkin Park do novo cd, “A Thousands Suns”, “Wathing for the End” e “Burning in the Skies”. Por mim compraria o cd todo, mas quando a conta chegasse minha mãe iria fazer um escândalo, por isso tenho que me conformar em ouvir pela rádio ou You tube.

― Então, só precisa fazer a conta e comprar?

― Em teoria. Só cuidado para não começar a comprar um monte de músicas e chegar uma conta de trezentas e poucas libras. Aconteceu comigo, eu não pude mexer no computador por quase um mês.

― É melhor começarmos a estudar ― Eu disse ao fazer o download das músicas ― São dez e quarenta combinei com Dieter para me vir me buscar meia noite, no máximo, meia noite e meia. Você tem certeza que sua mãe não se importa que façamos o trabalho a essa hora?

― Não esquenta, ela é bem liberal, mas se meu pai ainda morasse aqui duvido que estaríamos fazendo qualquer trabalho. O que ele passou exatamente? ― Se referia ao professor de matemática.

― Foi matrizes, a parte dos exercícios de vestibulares, só fazer números pares. É no capítulo de determinantes, na parte dos exercícios de vestibular só os ímpares. Alias você já percebeu como ele entra nas salas, parece que tem a aula preparada na ponta da língua, sabe exatamente o que falar, e os exercícios que tem que corrigir, nunca conheci ninguém tão metódico! ― Eu disse lendo o que estava nas folhas do caderno.

― Olha isso. ― Ela colocou o livro na mesa e tinha começado a ler um dos problemas.

― Uma matriz real E é ortogonal se EE elevado a t =I, onde I indica a matriz identidade e E elevado a t indica a transposta de A. Se A é igual… Tem esse negócio estranho aqui ― Disse ela apontando para a matriz sem paciência ― Se isso é ortogonal, então X² + Y² é igual a:

― É horrível tentar ser adolescente. ― Eu disse ao suspirar rispidamente.

― Como assim tentar ser? E pra onde eu vou transportar a matriz? Isso é estranho. — Exasperou Julie enquanto estalava o pescoço.

― Não ― Eu respondi rindo ― uma matriz transposta de A, é quando muda o número de linhas pelo de colunas. É representado pelo “A” elevado ao “t”.

― Se você não tivesse me dito, eu nunca saberia. ― Disse Julie ainda olhando para o problema como se pudesse decifrá-lo com o olhar.

― O professor disse isso, está escrito no caderno. Empresta uma caneta, a minha acabou a tinta. Vou tentar fazer.  — Eu disse.

― Boa sorte. ― Julie sarcasticamente enquanto me entregava a caneta. ― Como ele pensa que a gente consegue resolver algo desse nível! Aposto que quem criou isso morreu virgem! No mínimo não tinha vida social. ― Ela disse ao descontar a raiva no exercício, já que não conseguíamos fazer. Olhávamos para a ele como se fosse impossível de resolver.

— Estou cansada. — Eu disse depois de quase meia hora tentando fazer o mesmo exercício. Larguei a caneta.

― Além disso, o teste, onde serão colocados esses dois pontos valem um terço da nota em matemática um! Quando juntar com a nota de matemática II será um sexto da nota, isso não é nada! Isso é tão injusto, fazer quase trinta exercícios por menos que quatro décimos na média do primeiro bimestre.

― Que tal pensar que o objetivo principal é para se preparar para prova? ― Eu perguntei tentando reanimá-la.

― Quer saber passa para outro, esse está muito complicado, estamos há mais de meia hora nele.

Quarenta minutos depois, eu estava cansada, Julie realmente aborrecida. Tínhamos conseguido fazer nove exercícios de vinte e seis, era melhor que nada, era uma boa margem de acertos, eu disse a Julie. Descobri que mesmo ela quando estava aborrecida comia Pringles. Estava com a parte inferior dos lábios arroxeada por causa do sal, e a parte embaixo da cadeira estava cheia de farelos.

― Faltam dois dias para entregar o trabalho, nós podemos perguntar na escola se alguém conseguiu fazer algum dos outros.

― É talvez Jason tenha feito, ele é bom em matemática. É melhor que eu, se bem que isso não é grande coisa. É do período noturno, mas não está na mesma turma que a nossa. ― Disse Julie tentando explicar.

― Talvez sim. — Se este Jason fosse quem eu pensava, não parecia o tipo de pessoa que gastava tempo fazendo dever de casa, mas não queria desanimá-la.

Mudei o toque do meu celular para “No one like you” do Scorpions. Dieter me ligou por meia noite e dez. A mãe de Julie ainda não havia chegado. Julie passou por Bluetooth, algumas músicas, disse eu precisava me atualizar, eram de bandas como Green Day, Linkin Park, Pearl Jam. Logo depois, á meia noite e meia, Dieter passou na casa de Julie.

 

― Acho que vou começar a usar o carro. Você tem coisas para fazer, eu te atrapalho, pedindo para vir aqui até aqui, há essa hora. ― Disse a Dieter depois de um silêncio de vinte minutos, em que só se ouvia o barulho do ar condicionado.

― Você não me atrapalha, contudo a ideia de ver aquele carro fora daquela garagem é tentadora. Como já disse aquele carro não foi feito pra ficar trancado.

― Tem outro problema, precisaria instalar um GPS, não arriscaria ficar perdida. Mas o caminho para escola não deve ser difícil, estou indo há mais de duas semanas. — Eu disse em dúvida — Talvez, não me perca.

― Claro. Então vai de carro amanhã? — Ele perguntou enquanto entrava num desvio na rodovia.

― Acho que sim. Chama muita atenção, como você já sabe, quantas pessoas devem ter um modelo daqueles?

― Poucas. ― Respondeu Dieter refletindo. — Agora, se só estiver contando com as pessoas que vão à escola, acredito que nenhuma.

― Você não acha que usar aquele carro, vai me fazer parecer antiquada? Não me importo com os que os outros pensam, mas tendo em mente que só tenho dezessete anos, e ele tem mais de cinquenta…

― Não, ele vai fazer você parecer única. — Respondeu Dieter ao interromper meus questionamentos.

― Quer saber vou com o carro amanhã. ― Eu disse. Só queria parar de importunar Dieter, além disso, eu poderia ir sozinha para a escola, mesmo que não gostasse de dirigir.

― Esse é o espírito. — Ele respondeu quando estávamos em frente a minha casa.

― Tchau, e obrigada pela carona. — Eu disse a Dieter ao fechar a porta do Aston  Martin.

 

Assim que cheguei em casa, joguei minha bolsa no sofá, bebi três copos de suco de frutas vermelhas, tomei um ótimo banho, e antes de dormir fiz a conta pelo Itunes, aproveitando para comprar algumas músicas.

Estar com humanos causa reflexão, no mínimo relembrar como era quando tinha uma família, mesmo que não fosse exatamente feliz com ela, pelos menos tinha uma. Não era como se tivesse que me preocupar se meu estoque de bolsas de sangue estava acabando o que era surpreendentemente melhor do que quando tinha que matar para conseguir as tais bolsas. Não queria matar, inicialmente tentei evitar que acidentes semelhantes ocorressem. Não é que eu quisesse matar, sempre tentei de todas as formas fazer com que incidentes do tipo não ocorressem. Então, e isso acontecem com a maioria dos vampiros, percebo que devo matar para não morrer, inanição não é eficaz.   

A um ponto, a fome ou a sede, tanto faz para meus semelhantes é tão grande que não tem como não matar. Por ser instinto, dificilmente há tempo para pensar quem iria atacar ou quando, é como algo que explode do nada, se não me alimentasse ficava fora de mim. Primeiro começava a ficar com sede, depois a garganta ardia, quando se mora numa cidade grande, ao invés, de pessoas só dava para ouvir vários corações batendo em ritmo lento, normal e acelerado, não só os que estão a alguns metros, dão para ouvir os que estão a quadras de distância, isso só melhora quando se alimenta, é realmente insuportável, pois não tem como controlar. A não ser que vire um escravo das próprias emoções. Desse modo, não seria controle, seria aceitação.

Estava lembrando como era tudo no início, parecia outra vida em comparação a de hoje, era de fato, outra vida. Por causa do vampirismo não podia me estabilizar em um lugar, tinha que constantemente estar atenta para que ninguém percebesse. Não é como pudesse tingir mechas do cabelo de branco depois de algumas décadas e acreditassem que estava envelhecendo. Até porque humanos mudam constantemente, só pequenas coisas, o tamanho da unha, alguns centímetros a mais de cabelo, alguns machucados ou arranhões, pequenas variações, em pequenos espaços de tempo que após uma década, ou mesmo quatro anos, formam grandes mudanças.

Além disso, havia os documentos, carteira de identidade, motorista, não precisava do plano médico. Ano de nascimento: mil setecentos e setenta e quatro. Tente colocar isso no registro de nascimento, talvez no de óbito. Se fosse humana teria morrido pelo início da guerra civil americana, e isso com muita sorte, por que pessoas naquele tempo não viviam muito, com quarenta anos já seria considerada uma velha. Se morresse com sessenta anos, pensariam que morreu de tédio. Imagine com quarenta anos ser considerada velha! As coisas realmente mudam.

Já que tinha tempo suficiente para lembrar do passado, pensei em Tom, ele não sumia desse jeito. Algo sério devia estar acontecendo. A última carta que recebi foi há um mês. Queria pensar que houvesse algum problema com o correio, mas seria uma ilusão forçada. Mesmo que ele não recebesse a carta, ou não escrevesse em resposta não custava tentar. Escreveria para o último endereço em que ele esteve.

 

 

25 de agosto 2011, Londres.

Querido Thomas,

Estou escrevendo isso sem saber se receberá. Todos estão preocupados, e por todos quero dizer Dieter e Eve. Eles perguntam quase todos os dias onde você está. Disse que está em Dublin, mas sinceramente nem eu sei onde está, conheço você ouso dizer mais do que você mesmo e se até agora não mandou uma carta ou um recado dizendo que está vivo, tenho motivos para ficar preocupada.

Mande por favor, uma carta em resposta. Sei que é pedir muito, mas compre um celular, use um e-mail. Estou brincando, talvez, nem deva saber o que significa. Não é tão difícil de usar o celular, facilitaria tudo. Nem que seja aquele antigo que mais parece com tijolo do que celular, mas compre. Espero que sua higiene pessoal não esteja tão medieval como as cartas. Pelo menos, avise que ficará sem se comunicar por alguns anos. Não me importaria.

Brincadeiras a parte. O colégio está sendo como o esperado. Alguns incidentes reversíveis e outros que terei que me acostumar nada muito fora do comum. Seria mais simples se estivesse por perto. Ainda lembro-me que prometeu que viria ao meu aniversário, como cumpre o que promete tenho esperanças que virá. Não é todo dia que alguém completa minha atual idade.

Eve pensou em dar uma pequena reunião para comemorarmos. Convidaria alguns amigos do colégio uns seis a dez, no máximo. Provavelmente será na casa deles, Todos irão pensar que é do pai de Dieter, queremos manter como sempre as aparências. Manter as aparências é tão cansativo! De qualquer modo, a casa de Dieter parece mais apropriada. Um lugar melhor para um adolescente viver do que no meio do nada, numa casa mansão totalmente isolada da civilização. Ninguém acreditaria que moro numa casa dessa sozinha, uma casa vitoriana, é claro você sabe o porquê. Sei que é grande, mas é a parte que adoro. Sinto-me como se meus supostos pais tivessem saído, e deixado à casa só para mim. É algo que descobri ser supervalorizado pelos adolescentes atuais e os de algumas décadas atrás. Há alguns dias atrás estava vendo um filme em que isso acontece. O vi com Julie, uma nova amiga. Acho que é um clássico da geração X, o nome é “Risky Business” (Negócio Arriscado), Tom Cruise dança só de cueca numa cena memorável. Já ouviu Bob Seger? Talvez esteja divagando, mas qual seria intenção de uma carta entre amigos senão divagar sobre a própria vida?

Daqui alguns dias irei a uma festa ou social, ainda não decidi qual termo utilizar, será em Londres, no Soho. É para os alunos do segundo e terceiro ano. Um garoto que conheci virá até nossa casa me buscar, e será meu par. Parece que estou, de fato, me tornando uma colegial.

Sinto Saudades, o que é redundante dado a tudo que escrevi.

Sua amiga,

Anna.

P.S. Quase me esqueci de mencionar, a festa… Quer dizer, a minha reunião será no dia primeiro de outubro, no sábado, um dia após meu aniversário, ainda não sei que horas começará, tenho que conversar com Eve sobre isso. São noventa e nove anos, Tom. Gostaria de dizer que estou feliz por isto. Quantas pessoas podem dizer isso literalmente e não só como numa figura de linguagem? Por favor, você precisa vir. Isso é uma intimação.

 

Após, fechei a carta e a coloquei em um envelope, e o enderecei ao último lugar em que ele havia estado. O enviaria amanhã. Mesmo que ele não mais estivesse lá, como das últimas vezes, ele pediria alguém para remeter a correspondência.

Era possível ver Thomas por inteiro. Imaginava-o sentindo o fraco perfume de lilás com que o envelope e o papel foram borrifados. O quarto escuro de hotel que estaria, pois tal como eu, detestava claridade. Os ombros largos que a camisa de tons escuros ajudariam a sobressair, a parte inferior de um dos braços repousaria sobre a calça de alfaiataria que usava. As mãos grandes e fortes tensionadas ao abrir a carta com o antigo e enferrujado abridor, que possuía as minúsculas iniciais gravadas a ouro, a única parte que ainda reluzia naquele velho e gasto objeto em forma de adaga egípcia. Finalmente, os dedos de aspecto lívido encontrariam o amarelado do papel áspero, haveria o lampejo de brilho nos olhos ao observar a caligrafia em letra cursiva preta que reconheceria; o olhar reflexivo ponderando se algum dia usaria ou não um celular. A pequena ruga que se formaria na testa ao sorrir com a crítica construtiva aos nossos atrasos tecnológicos. Não sentiria minha falta, provavelmente estaria acompanhado, sempre esteve, gostava disso nele. Éramos diferentes, mas nos entendíamos como se fôssemos ligados por algo superior à própria natureza. Não sentia falta de Tom, não muito, era como se a ausência dele o colocasse ainda mais perto de mim. E o dia em que nos reencontraríamos fugia a qualquer descrição, talvez fosse espasmódico. Ele era meu amigo, o que me compreendia, estar afastados era um meio para se obter um fim maquinado, pois se quiséssemos possuir o dia em que nos reencontraríamos, deveríamos antes nos separar. Era apenas uma pequena perda.

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