Prólogo (Prologue)

Era dezembro. A lua já repousava sobre o céu de um cinza escuro impenetrável, nevava, e por causa da névoa ficava difícil de enxergar. Num dia como esse há mais tempo do que tenho coragem de confessar, foi o início de um fim. A certeza era de que iria acabar. As crises existenciais estavam me matando, metaforicamente, e o suicídio não era uma tarefa muito simples. Se ele não desse um fim ao meu sofrimento, eu iria acabar matando mais pessoas, mesmo que esta não tenha sido a razão de estar lá. Se eu me importo? Não, deixei de me importar a muito.

O modo como morri, ninguém merece morrer daquele jeito, não era de longe a forma natural, ao mesmo tempo eu não chamaria de acidente. Talvez, só estivesse no lugar errado, na hora errada, ao mesmo tempo em que poderia ser totalmente o oposto. O último mês estava muito calmo, deveria ter desconfiado. Só não estava queimando viva neste momento, por que não havia sol. Desconfiava que para este mundo eu era suficientemente pura para queimar, não me pergunte o porquê, pois já cansei de fazer a mim mesma essa pergunta. Onde estava tudo era calmo e desprovido de luz, e o silêncio era inquietantemente paciente. Poderia sentir o medo dele, pois sabia que eu era capaz de fazer qualquer coisa, no entanto, aparentava que não fosse.

Da mesma forma que décadas atrás, alguém iria me matar, dessa vez realmente morreria, deixaria pessoas que gostava, mas vivi muito tempo, suficiente para não me importar mais, não é como se ainda fosse jovem. Comecei a sentir uma paz, a mesma que havia perdido na noite em que minha família morreu há tempos atrás. Uma memória bem destorcida, não conseguia mais nem imaginá-los, as feições eram difíceis de ser lembradas, no entanto, as de Victor ainda eram muito claras.

Na primeira vez a dor deixou o corpo tórpido. Tornou a respiração desnecessária enquanto mergulhava num sono profundo e atordoante, que aos poucos enfraquecia até que nada mais restasse, como se minha alma estivesse se desprendendo do meu corpo, se é que algum dia possui uma. Parece estúpido ao ser dito desse jeito, mas é o único que consigo descrever. Agora, estava quase imune a dor, era dependente dela, em especiais ocasiões ela também dependia de mim. Era o modo, o único modo, de me sentir humana, precisava, era meu zênite. Aquele sangue circulando pelo meu corpo estava me queimando por dentro, como na primeira vez meu corpo começou a formigar e depois a qualquer momento ele iria me matar, finalmente abraçaria a morte, senti alívio. A liberdade que tanto procurava, só agora, entendia que a teria quando morresse.

― Eu já me sinto morta. ― Disse a ele que me observava como se estivesse tentando me ler. ― Matei um dos seus, nada mais justo. — Não estava usando psicologia inversa. Ele me ignorou, e foi até o outro lado do sepulcro, onde se encontravam as cartas deterioradas pelo tempo.

Estava errada, como sempre nunca entendi como os vampiros pensam, é irônico. A morte é convidativa, como um velho amigo, depois de tanto tempo. Pude viver mais do que esperava, mais do que qualquer um espera. Vi coisas que pessoas que aparentemente possuem minha idade nunca sonharam ver fora das páginas dos livros. Presencie Napoleão Bonaparte voltar vitorioso do exílio que fora colocado na ilha de Elba, e do mesmo modo, ouvi rebuliços do fracasso, após perder a Batalha de Waterloo. Estive na França em meados do Governo de Cem Dias. O tempo molda tudo.

Minha roupa estava toda suja e com um cheiro horrível, graças ao belo e repugnante lugar em que me encontrava. O casaqueto azul do Tailleur que anteriormente usava, estava agora no chão, sujo e encharcado de sangue. Parecia uma cena irônica de um Giallo, filmes italianos de violência extrema com assassinatos em série, cujo o culpado costuma ser revelado nas cenas finais. Fechei os olhos, por alguns segundos que pareciam uma eternidade, tudo que fiz passou pelos meus olhos, todas as lembranças boas e ruins eram fotografias que desvaneciam muito rápido para prestar atenção, como num filme de ação. O tempo é algo engraçado, quando pensa que o possuí, ele acaba exatamente naquele sublime segundo em que se compreende o sentido de estar aqui. Duzentos e trinta e sete anos é de uma admirável lentidão. E não há sentido nenhum, por que mesmo que se tenha agido como se a vida fosse um manual de instruções, e tivesse seguido todas as regras, algo que dificilmente faria no fim você estará morto.

Tudo na minha vida aconteceu ao acaso, simplesmente aconteceu, não há como explicar o inexplicável. Sempre! É antes de tudo uma palavra traiçoeira, tão relativa e peculiar quanto as pessoas que as pronunciam.

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